Texto enviado a lista de emails do GT Geografia e Anarquismo da CONEEG.
Economia Solidária é Revolução
""Capital"... no campo poltico é análogo a "governo"... A ideia econômica de capitalismo, as políticas de governo ou de autoridade, e a ideia teológica de igreja são tres ideais identicos, de várias formas, vinculados. Atacar uma delas é o equivalente a atacar todas elas... o que o capital faz ao trabalho, e o Estado à Liberdade, a Igreja faz com o espírito. Esta trindade do absolutismo é tão perniciosa na prática quanto o é na filosofia. O meio mais efetivo de oprimir os povos seria simultaneamente escravizar seu corpo, sua vontade e sua razão." Pierre Joseph Proudhon Confissões de um revolucionário, (Paris: Garnier, 1851), p. 271.
"Quem quer que seja que, para organizar o trabalho apela ao poder e ao capital, mentiu; porque a organização do trabalho deve ser a derrocada do capital e poder". Pierre Joseph Proudhon in Sistema das Contradições Econômicas ou Filosofia da Miséria, Tomo II (pág.322)
Textos do campônes, proletário, Pierre Joseph Proudhon sobre a Economia Solidária, a Revolução Social :
"Pôr em ligação direta, qualquer que seja a distância que os separa, o produtor e o consumidor, e consequentemente... suprimir, tanto quanto possível, os intermediários.
Este resultado, observado à primeira vista, conduziu à ideia dos estaleiros...
Assim unidos, ligados entre eles pela rede de circulação, em correspondência perpétua e instantânea pelo telégrafo, estes novos instrumentos de troca, formariam um imenso mercado, único e permanente, uma bolsa continua, onde o preço dos artigos se equilibre, rodeada de todas as garantias de boa fé e de certeza, e dum movimento uniforme...
Deste modo... pelo estabelecimento dos estaleiros, todo o sistema comercial é revolucionado de alto a baixo... (Réf. à opérer, cap. V.)
A formação dum organismo especial, uma sociedade, é necessária; falta uma única resolução... é chamar a fazer parte da nova Sociedade, sem limitação de número nem de prazo, todos aqueles que, pelo seu trabalho, as suas trocas, o seu consumo, as necessidades da sua indústria, etc., estão interessados na nova instituição; noutros termos, é de tomar como comanditários da sociedade mesmo aqueles que devem vir a ser seus clientes...
A Sociedade, sendo somente um estabelecimento de comissão, de troca e de crédito, simples intermediário entre os produtores e os consumidores... agiria sempre por conta de outrem..."
l.º - A federação agrícolo-industrial
Casar a agricultura com a indústria... a causa dos camponeses é a mesma dos trabalhadores da indústria, a marianne dos campos é a contrapartida da social das cidades... Cabe à democracia industrial das grandes cidades... encontrar os pontos de ligação que existem entre ela e a democracia camponesa. (Cap. Pol., liv. I, cap. II.)
A finalidade destas federações particulares é subtrair os cidadãos... à exploração capitalista. Elas formam, no seu conjunto, em oposição à feudalidade financeira, hoje dominante, o que chamaria uma federação agrícolo-industrial...
A feudalidade financeira e industrial tem por objetivo consagrar, pela monopolização dos serviços públicos, pelo privilégio da instrução, o parcelamento do trabalho, o interesse dos capitais, a desigualdade do imposto, etc., a degradação política do povo, a escravidão económica do assalariado; numa palavra: a desigualdade de condições e de fortunas. A federação agrícolo-industrial, pelo contrário, tende a fazer atingir, cada vez mais, a igualdade através da organização, ao mais baixo preço e noutras mãos que não as do Estado, de todos os serviços... pela mutualidade do crédito e dos seguros... pela garantia do trabalho... (Princ. Féd., cap. XI.)
A pequena indústria é tão grande asneira como a pequena cultura:... é a igualdade das fortunas que é preciso procurar, não o desmenbramento industrial. A grande indústria e a grande cultura aparecem-nos devido ao grande monopólio e à grande propriedade: é preciso no futuro fazê-las nascer da associação. (Carnets, 6 de Set. de 1846.)
2.º - Os agrupamentos de consumidores
Na via em que a civilização está empenhada... , tende-se sempre para o despotismo do monopólio, e consequentemente para a opressão dos consumidores. (Contr. Écon., cap. VII.)
Se cada produto só encontrar escoamento para os produtores de espécie diferente, a garantia de mercado só pode ser obtida, em principio, por uma convenção entre os produtores e os consumidores.
Esta convenção, em geral fácil pelo lado do produtor, sobretudo quando não existe monopólio, sê-lo-á tanto mais da parte da clientela, quanto esta se encontrar formada por grupos que possam tratar, com um só homem, quer do seu consumo coletivo, quer mesmo, em certos casos, dos seus consumos individuais... (Des Réf. à opérer, cap. V.)
3.º - O sindicato geral da produção e do consumo
O que nós pedimos é uma certa solidariedade, não só abstrata, mas oficial, entre todos os produtores, entre todos os consumidores e entre os produtores e os consumidores. É a conversão em direito... das leis absolutas da ciência económica. Nós fazemos depender deste pacto a garantia do nosso bem-estar. (Solut. du Probl. Soc.)
Foi criada, desde a presente data, para este fim, uma divisão especial, sob o titulo de Sindicato geral da Produção e do Consumo. (Banque du Peuple.)
É preciso que o exército dos trabalhadores-consumidores absorva o exército capitalista. (Carnets, l.º de Outubro de 1847.)
Quando se fala de produtores,... quando se fala de consumidores... não se trata de classes de homens; trata-se de pontos de vista que se opõem... Estabelecer a Justiça na troca, regularizar a circulação, será, ao mesmo tempo, regularizar o consumo e a produção, e transformar a propriedade e o salariato. (Carnets, 6 de Março de 1847.)
4.º - A organização cooperativa dos serviços
- O comércio:
- Na fase do pormenor: um sistema ‘Leclerc’ cooperativo:
Se a igualdade no comércio fosse conseguido, um progresso novo, um progresso imenso seria realizado em direcção à igualdade das fortunas... Perseverando nessa direcção igualitária, que viria a ser, muito em breve, da hierarquia, o sistema de subordinação e de autoridade?
Nestes últimos tempos, o governo imperial tentou regulamentar o comércio de carne e de panificação, a produção de álcoois, etc. À custa de multas, conseguiu fazer respeitar as suas taxas; mas como não depende do governo marcar o preço natural das coisas, muito menos ainda eliminar do preço corrente as sobrecargas com que o parasitismo o agrava, o governo só teve êxito em constatar oficialmente que o pão estava caro, a carne caríssima, as aguardentes inacessíveis e sancionar esta carestia. O governo, que não garantiu nenhuma invenção, lembrou-se, de repente, para bem do povo, de garantir a carestia dos alimentos. Que filantropia!
No entanto, um capitalista (M. Delamarre) aproveitando uma ideia socialista, diz: não aspiro a fixar o preço das coisas; mas praticarei um comércio verídico, farei uma vida barata, não sendo, para já, completa a troca legal. Usarei de lealdade comercial, não por virtude, mas por especulação, e obterei melhores resultados...
M. Delamarre abriu um grande armazém onde oferece ao público, a preço de revenda, toda a espécie de produtos, garantidos pela natureza, quantidade, qualidade e peso. Por preço de revenda, M. Delamarre entende os encargos do produtor, que ele não discute, aumentados de l0% a saber: 5% de lucro para o produtor, 2,5% para os encargos de armazém, 2,5% para lucro dele, Delamarre. Existe, como ele próprio o diz, lealdade comercial; não há ainda igualdade, porque nos encargos do produtor e nos 10% de suplemento entram ainda, em grande número, elementos parasitas.
Que seria preciso para que a reciprocidade fosse completa ?
Seria preciso, independentemente da expurgarão absoluta do parasitismo, que o armazém geral, ou estaleiro, em vez de estar por conta dum empresário, estivesse por conta dos próprios produtores, garantindo uns aos outros lealdade e sinceridade.
A quem pode pertencer o direito de debater e fixar, conforme a hora e o lugar, o preço exacto de cada coisa, se são os produtores-consumidores, reciprocamente os interessados, quer na venda, quer na compra?
Nada mais simples que este sistema, que faria desaparecer três quartos das lojas, e ofereceria à produção uma multidão de inteligências e de braços, absorvidos num negócio inútil...
É de admitir até que, único da sua espécie, um tal estabelecimento sucumbisse, sem que o princípio, segundo o qual foi criado, seja o menos comprometido do mundo.
"É PRECISO EU REPITO, QUE UMA FORÇA MAIOR INVERTESSE AS FÓRMULAS ATUAIS DA SOCIEDADE; QUE SEJA O TRABALHO DO POVO E NÃO SUA BRAVURA OU OS SEUS SUFRÁGIOS QUE, POR UMA COMBINAÇÃO CIENTÍFICA, LEGAL, IMORTAL E INELUTÁVEL SUBMETA O CAPITAL AO POVO E LHE ENTREGUE O PODER." PIERRE JOSEPH PROUDHON, PÁG 438 FILOSOFIA DA MISÉRIA TOMO I
Esse blog é uma ferramenta de comunicação criada a partir das prosas e articulações do grupo de trabalho Geografia e Anarquismo. Este Gt surgiu de um debate da Confederação Nacional de Entidades Estudantis de Geografia (Coneeg) e busca agregar estudantes com demandas convergentes. Esperamos que seja, também, uma ferramenta de propaganda e militância do anarquismo e das práticas libertárias dentro e fora da universidade. Saudações libertárias!
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Este texto tem a pretensão de aproximar a discussão entre Geografia e Comunicação por um viés libertário. Provavelmente não será o único e ...
quinta-feira, 28 de abril de 2011
domingo, 10 de abril de 2011
sexta-feira, 25 de março de 2011
FESTA DE 7 ANOS DE CASA DA LAGARTIXA PRETA
Este sábado teremos a festa de 7 anos da Casa da Lagartixa Preta "Malagueña Salerosa", estão convidados a virem, a conhecerem e a comemorarem com a gente!!!! =)
Muita conversa, comidas e baile!!!
A Casa da Lagartixa é um espaço político, que funciona como um laboratório de experiências tanto para nós do Coletivo AtivismoABC, quanto para aqueles que se aproximam, tentando mostrar na prática que muitas coisas são possíveis: autogestão, integração com outros espaços, aprender fazendo, resistir, autonomia em relação ao estado e ao mercado (mesmo que dentro dos limites isso significa) ....
Enfim.... Venha conhecer e participar!!!
A festa será dia 26/03 a partir das 16:00 h.
Ahhh, traga um prato de doce ou salgado para compartilhar, músicas também serão bem vindas!! :)
Mais informações em: http://www.ativismoabc.org/ ou ativismoabc@riseup.net
Abraços libertários
Anarquismo e Resistência!!!! =)
AtivismoABC
Muita conversa, comidas e baile!!!
A Casa da Lagartixa é um espaço político, que funciona como um laboratório de experiências tanto para nós do Coletivo AtivismoABC, quanto para aqueles que se aproximam, tentando mostrar na prática que muitas coisas são possíveis: autogestão, integração com outros espaços, aprender fazendo, resistir, autonomia em relação ao estado e ao mercado (mesmo que dentro dos limites isso significa) ....
Enfim.... Venha conhecer e participar!!!
A festa será dia 26/03 a partir das 16:00 h.
Ahhh, traga um prato de doce ou salgado para compartilhar, músicas também serão bem vindas!! :)
Mais informações em: http://www.ativismoabc.org/ ou ativismoabc@riseup.net
Abraços libertários
Anarquismo e Resistência!!!! =)
AtivismoABC
Educação & Anarquismo com Biblioteca Terra
Casa da Lagartixa Preta Apresenta:
Conversa: Educação & Anarquismo com Biblioteca Terra
Dia 27/03 (Domingo) - às 14h!
Debate a partir de concepções de Kropotkin e Elisée Reclus.
http://bibliotecaterralivre.wordpress.com/
Na Casa da Lagartixa Preta - Rua Alcides de Queirós, 161
Bairro Casa Branca - Santo André - SP
www.fotolog.com.br/ativismoabc
http://www.ativismoabc.org/
ativismoabc@riseup.net
Sejam bem-vind@s!
Conversa: Educação & Anarquismo com Biblioteca Terra
Dia 27/03 (Domingo) - às 14h!
Debate a partir de concepções de Kropotkin e Elisée Reclus.
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Na Casa da Lagartixa Preta - Rua Alcides de Queirós, 161
Bairro Casa Branca - Santo André - SP
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ativismoabc@riseup.net
Sejam bem-vind@s!
terça-feira, 15 de março de 2011
Anarquistas da Indonésia pedem solidariedade
Desde 2007, um grupo de anarquistas está participando de uma luta camponesa em Yogyakarta, um "território especial" no centro de Java, na Indonésia. Na zona costeira de Kulon Progo, os agricultores resistem a uma mineradora de ferro e uma industrialização crescente, que ameaça a sua terra e sua existência. Foram organizados na PPLP-KP (Associação de Produtores Costeiros, Kulon Progo) diferentes batalhas contra os poderes econômicos. Várias vezes, milhares de agricultores se uniram de forma combativa para enfrentar os investidores.
Yogyakarta é considerado um território especial e tem leis diferentes, por seu papel histórico no reino de Java. No momento, um conflito entre o governo local e o estado central está criando obstáculos à exploração econômica da área, visto que o sultão de Yogyakarta luta por mais autonomia local. Liberais e ONGs consideram o sultão como o mais democrático das autoridades públicas, embora, obviamente, nada mais é do que um jogo de poder. Se o sultão ganhar, os agricultores serão igualmente explorados, uma vez que a empresa local de minério de ferro, Ferro Jogja Magasa, pertence a sua filha.
Até agora, a polícia e o exército não foram motivados a reprimir a luta campesina com todas as suas forças, porque ainda não apareceu o dinheiro para pagar as suas propinas, visto que o conflito político não está resolvido e a resistência camponesa abalou grande parte da possível inversão econômica.
Os grandes investidores são empresas japonesas e uma importante empresa australiana, Kimberly Diamond, que em seus projetos na Indonésia se chama Indomines. Apesar da resistência, os planos de desenvolvimento seguem, porque a mineradora de ferro é apenas um pré-requisito para outros mega projetos. A área de Kulon Progo é vista como economicamente estratégica para o desenvolvimento industrial e penetração de mineradoras em toda a Java central. É por isso que o Estado pretende construir uma estrada, aeroporto e mais infra-estrutura no território, tais projetos seriam financiados pelo Banco Asiático de Desenvolvimento (Asian Development Bank).
Tentam criminalizar a luta dos camponeses, mas ainda não conseguiram impor a lei de seus tribunais. Os agricultores não respeitam as leis e, de acordo com companheiros de lá, "os camponeses vêem toda a lei como a língua do inimigo". Tampouco confiam nas ONGs e nos esquerdistas, que sempre tentam se infiltrar na sua luta, e várias vezes chegaram pessoas da esquerda em suas assembléias. Com os anarquistas, pelo contrário, têm bons relacionamentos. Juntos criaram um centro social, Gerbong Revolusi (que tem uma biblioteca, estação de rádio, espaço infantil e espaço para assembléias e repouso). Também coordenaram uma rede de solidariedade com os anarquistas na Austrália e estabeleceram uma rádio comunitária.
Para obter mais informações, leia (em Inglês):
› http://hidupbiasa.blogspot. com/2009/12/tale-of-sand.html
Atualidades:
Quinta-feira, 24 de fevereiro. A empresa mineradora tentou reabrir seu escritório e as suas operações, que em dezembro passado os camponeses haviam fechado e destruído. A tentativa falhou e os locais permanecem fechados.
Segunda-feira, 28 de fevereiro. A Ferro Jogja Magasa e alguns investidores japoneses não vieram para uma reunião, sobre a mina da mina.
Quarta-feira, 2 de março. Nove carros da polícia fortemente armada passaram pelo projeto.
Quarta-feira, 7 de março. 31 caminhões da polícia, 700 da Brigada Policial Móvel, com canhão de água, veículos especiais para os detidos, cães da polícia, armas de gás lacrimogêneo e armas militares, ocuparam a cidade.
Chamamos a solidariedade urgente!
Agência de Notícias Anarquistas - ANA
A - I n f o s Uma Agencia De Noticias
De, Por e Para Anarquistas
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Yogyakarta é considerado um território especial e tem leis diferentes, por seu papel histórico no reino de Java. No momento, um conflito entre o governo local e o estado central está criando obstáculos à exploração econômica da área, visto que o sultão de Yogyakarta luta por mais autonomia local. Liberais e ONGs consideram o sultão como o mais democrático das autoridades públicas, embora, obviamente, nada mais é do que um jogo de poder. Se o sultão ganhar, os agricultores serão igualmente explorados, uma vez que a empresa local de minério de ferro, Ferro Jogja Magasa, pertence a sua filha.
Até agora, a polícia e o exército não foram motivados a reprimir a luta campesina com todas as suas forças, porque ainda não apareceu o dinheiro para pagar as suas propinas, visto que o conflito político não está resolvido e a resistência camponesa abalou grande parte da possível inversão econômica.
Os grandes investidores são empresas japonesas e uma importante empresa australiana, Kimberly Diamond, que em seus projetos na Indonésia se chama Indomines. Apesar da resistência, os planos de desenvolvimento seguem, porque a mineradora de ferro é apenas um pré-requisito para outros mega projetos. A área de Kulon Progo é vista como economicamente estratégica para o desenvolvimento industrial e penetração de mineradoras em toda a Java central. É por isso que o Estado pretende construir uma estrada, aeroporto e mais infra-estrutura no território, tais projetos seriam financiados pelo Banco Asiático de Desenvolvimento (Asian Development Bank).
Tentam criminalizar a luta dos camponeses, mas ainda não conseguiram impor a lei de seus tribunais. Os agricultores não respeitam as leis e, de acordo com companheiros de lá, "os camponeses vêem toda a lei como a língua do inimigo". Tampouco confiam nas ONGs e nos esquerdistas, que sempre tentam se infiltrar na sua luta, e várias vezes chegaram pessoas da esquerda em suas assembléias. Com os anarquistas, pelo contrário, têm bons relacionamentos. Juntos criaram um centro social, Gerbong Revolusi (que tem uma biblioteca, estação de rádio, espaço infantil e espaço para assembléias e repouso). Também coordenaram uma rede de solidariedade com os anarquistas na Austrália e estabeleceram uma rádio comunitária.
Para obter mais informações, leia (em Inglês):
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Atualidades:
Quinta-feira, 24 de fevereiro. A empresa mineradora tentou reabrir seu escritório e as suas operações, que em dezembro passado os camponeses haviam fechado e destruído. A tentativa falhou e os locais permanecem fechados.
Segunda-feira, 28 de fevereiro. A Ferro Jogja Magasa e alguns investidores japoneses não vieram para uma reunião, sobre a mina da mina.
Quarta-feira, 2 de março. Nove carros da polícia fortemente armada passaram pelo projeto.
Quarta-feira, 7 de março. 31 caminhões da polícia, 700 da Brigada Policial Móvel, com canhão de água, veículos especiais para os detidos, cães da polícia, armas de gás lacrimogêneo e armas militares, ocuparam a cidade.
Chamamos a solidariedade urgente!
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sábado, 5 de março de 2011
Quero falar-te do Anarquismo
"Quero falar-te do anarquismo.
Quero falar-te o que é o anarquismo, porque penso que é bom que o conheças. Também porque se conhece tao pouco dele e o que se conhece em geral é de ouvir falar e em sua maiora mentiras.
Quero falarte dele, porque acredito que o anarquismo é a coisa mais preciosa e mais importante que o homem ja pensou, a única coisa que pode proporcionar-te liberdade e bem-estar, e que pode trazer a paz e o gozo ao mundo.
Quero falar-te dele em uma linguagem simples de modo que não existam malentendidos. As palavras dificeis e grandioloquentes servem apenas para confundir. Um pensamento direto deve ter uma linguagem direta.
Mas antes de dizerte o que é o anarquismo, quero dizerte o que não é.
Isto é necessário, porque tem-se difundido muitas mentiras sobre o anarquismo, Inclusive pessoas inteligentes frequentemente tem noções inteiramente erroneas sobre ele. Algumas falam sobre o anarquismo sem saber absolutamente nada dele. E alguns mentem sobre o anarquismo, porque não querem que tu saibas a verdade sobre ele."
(trecho do ABC do Comunismo Libertário de Alexander Berkman tradução livre)
Quero falar-te o que é o anarquismo, porque penso que é bom que o conheças. Também porque se conhece tao pouco dele e o que se conhece em geral é de ouvir falar e em sua maiora mentiras.
Quero falarte dele, porque acredito que o anarquismo é a coisa mais preciosa e mais importante que o homem ja pensou, a única coisa que pode proporcionar-te liberdade e bem-estar, e que pode trazer a paz e o gozo ao mundo.
Quero falar-te dele em uma linguagem simples de modo que não existam malentendidos. As palavras dificeis e grandioloquentes servem apenas para confundir. Um pensamento direto deve ter uma linguagem direta.
Mas antes de dizerte o que é o anarquismo, quero dizerte o que não é.
Isto é necessário, porque tem-se difundido muitas mentiras sobre o anarquismo, Inclusive pessoas inteligentes frequentemente tem noções inteiramente erroneas sobre ele. Algumas falam sobre o anarquismo sem saber absolutamente nada dele. E alguns mentem sobre o anarquismo, porque não querem que tu saibas a verdade sobre ele."
(trecho do ABC do Comunismo Libertário de Alexander Berkman tradução livre)
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Poesia, Anarquismo, Luta e Geografia
Viva a luta dos trabalhadores!
Viva o sonho libertário!
Viva aos Geógrafos que lutam e vivem este ideal revolucionário!
Mantenhamos viva a utopia,
Viva a santa rebeldia que nos livrará de toda opressão.
Viva a tão sonhada liberdade
construamos com nossas mãos essa nova sociedade.
Geógrafos formados ou em formação
grandes são nossos desafios e poderoso o nosso inimigo
qual o motivo de nossa desunião?
Se quem espera de nós é povo não é a universidade, não!
Enquanto disputam-se idéias sem ação
os abutres, capitalistas nacionais ou não,
Comem o fígado dessa nação.
De suas entranhas tiram a riqueza, Pacha Mamma!
Mas não alimentam aos teus filhos, não,
fazem sangrar até mesmo o teu coração.
mas até hoje, nunca houve nesse solo a distribuição.
Nós queremos terra, liberdade, pão.
Mas diante de nós levante-se o Estado
ignorando nossas demandas, esmagando nossos sonhos
roubando o nosso chão.
Não devemos temer o inimigo
não temamos o perigo, a morte ou a cadeia.
e tenhamos claro em nossa mente, Geógrafos
que não ta morto quem peleia!
Viva o sonho libertário!
Viva aos Geógrafos que lutam e vivem este ideal revolucionário!
Mantenhamos viva a utopia,
Viva a santa rebeldia que nos livrará de toda opressão.
Viva a tão sonhada liberdade
construamos com nossas mãos essa nova sociedade.
Geógrafos formados ou em formação
grandes são nossos desafios e poderoso o nosso inimigo
qual o motivo de nossa desunião?
Se quem espera de nós é povo não é a universidade, não!
Enquanto disputam-se idéias sem ação
os abutres, capitalistas nacionais ou não,
Comem o fígado dessa nação.
De suas entranhas tiram a riqueza, Pacha Mamma!
Mas não alimentam aos teus filhos, não,
fazem sangrar até mesmo o teu coração.
mas até hoje, nunca houve nesse solo a distribuição.
Nós queremos terra, liberdade, pão.
Mas diante de nós levante-se o Estado
ignorando nossas demandas, esmagando nossos sonhos
roubando o nosso chão.
Não devemos temer o inimigo
não temamos o perigo, a morte ou a cadeia.
e tenhamos claro em nossa mente, Geógrafos
que não ta morto quem peleia!
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
domingo, 6 de fevereiro de 2011
As revoltas que explodiram no mundo árabe no Iêmen, Tunísia e agora no Egito apanharam todos de surpresa. Constituem, sem sombra de dúvida, um dos acontecimentos mais relevantes do nosso tempo e são um sinal claro de que já não é possível, em lugar nenhum, continuar-se a ser um joguete de ditador com o apoio imperialista. Os regimes extraordinariamente autoritários como os de Ben Ali revelaram-se completamente impotentes perante um povo com grande determinação, unido na luta. São jovens, trabalhadores, desempregados, pobres, os que levam a cabo esta tarefa de mudar o rosto da região provocando calafrios aos mandantes de Washington e de Tel Aviv. Nem todas as armas do regime de Mubarak, nem toda a ajuda militar dos EUA, conseguiram controlar a extensão do protesto. Os rebeldes revelam o poder do povo e da classe trabalhadora quando se unem, a capacidade política dos homens e mulheres comuns para formar organismos de poder dual, com um claro instinto libertário para além de demonstrarem ao mundo que nos encontramos já numa era de mudanças revolucionárias.
Estabelecemos um breve diálogo com o nosso companheiro e amigo Mazen Kamalmaz, da Síria - editor do blog anarquista árabe http://www.ahewar.org/m.asp?i=1385 - que nos falou da importância deste esplêndido acontecimento político.
Pergunta > Parece que toda uma repentina onda de protestos massivos está a sacudir as fundações dos velhos regimes opressivos no mundo árabe… havia indícios de que isto poderia suceder?
Mazen Kamalmaz < Este é um dos aspectos mais interessantes da onda revolucionária que se está a expandir por todo o mundo árabe que chega quando nada o fazia prever. Ainda alguns dias antes das manifestações massivas e sucessivas no Egito a Secretaria de Estado dos EUA, Hillary Clinton, declarava que o governo egípcio era estável e neste momento nada é estável na região: a insurreição mantém-se de pé e para todos os regimes repressivos espera-se o pior. Há aspectos que se reportam a todas estas sublevações tais como a raiva e ressentimento que estavam escondidos, silenciados pela repressão dos Estados, a pobreza e o desemprego crescentes - a que os regimes, estadistas e até intelectuais não prestaram a devida atenção - em relação aos quais os governos, locais ou ocidentais, pensaram que poderiam manter a revolta sob controle… agora sabemos como se enganaram.
Pergunta > Qual a importância da saída de Ben Ali do governo da Tunísia?
Mazen < Este é apenas o primeiro passo do que está para vir. Supõe que o povo, o povo em luta, consegue desafiar a repressão e vencer. É muito cedo para falar sobre o desenlace final, é tudo demasiado complexo ainda, mas o povo já conseguiu ter consciência do seu poder real e apesar disso mantém-se na rua, de modo que a luta ainda se encontra aberta a muitas possibilidades.
Pergunta > Para aonde se está a expandir a revolta? Que países podem experimentar rebeliões massivas?
Mazen < Hoje pode-se afirmar seguramente que qualquer um poderia ser o próximo. Talvez a Argélia, Iêmen ou Jordânia sejam candidatos fortes, mas temos de ter em conta que uma revolução no Egito teria um grande impacto na região, impacto esse que superaria os piores pesadelos dos ditadores e dos seus partidários na região.
Pergunta > Qual seria a relevância de uma revolução no Egito, o segundo maior receptor de ajuda militar estadunidense em todo o mundo?
Mazen < O Egito é o país com as maiores dimensões do Oriente Médio e o seu papel estratégico é muito importante. É um dos principais pilares da política estadunidense nessa região. A pressão das massas é um fator a ter em conta daqui pra frente, inclusive em relação à sobrevivência do velho regime resistir durante algum tempo mais ou não, ou se o novo regime será pró estadunidense. Resumindo, os EUA, o principal apoio do regime atual, irá sofrer o efeito da rebelião das massas egípcias.
Pergunta > Qual o papel dos Irmãos Muçulmanos nestes protestos? E da “velha guarda” da esquerda?
Mazen < Um aspecto muito importante destas manifestações e revoltas é que tiveram uma origem totalmente espontânea e iniciada pelas massas. É verdade que os diferentes partidos políticos juntaram-se a elas mais tarde, mas todo o processo foi, em grande medida, uma manifestação de ação autônoma por parte das massas. Isto é também válido para os grupos políticos islamitas. Embora estes ditos grupos pensem que as futuras eleições os poderiam levar agora ao poder, com as massas em rebelião nas ruas isso será difícil, dado que se negaram ativamente a submeter-se de novo a outro poder repressivo, mas mesmo no caso que isso sucedesse, o povo não aceitaria ser submetido nesta ocasião, enquanto se mantém fresca para a maioria a memória eufórica das parcelas de liberdade que alcançaram através da sua própria luta. Nenhum poder os poderia forçar facilmente a submeter-se de novo a algum regime repressivo. Outro aspecto a ter em conta é que durante as revoluções o povo é mais receptivo às idéias libertárias e anarquistas, e que é a liberdade a idéia hegemônica do momento não o autoritarismo. Alguns dos grupos estalinistas só representam o rosto mais feio do socialismo autoritário... Por exemplo, o antigo Partido Comunista da Tunísia participou com o partido dominante de Ben Ali no governo formado após a expulsão do próprio Ben Ali. Outro grupo autoritário, o Partido Comunista dos Trabalhadores da Tunísia, participou ativamente nos protestos, mas depressa manifestaram as suas contradições: quando Bem Ali escapou tratou de criar conselhos ou comitês locais para defender o processo e logo de seguida retratou-se e apelou para se criar um novo parlamento e governo. No Egito passa-se praticamente o mesmo, há grupos reformistas de esquerda, como o Partido da Unidade Progressista e alguns revolucionários da esquerda autoritária. Não posso dizer com exatidão qual o papel dos anarquistas ou de outros libertários - há uma crescente tendência comunista conselhista junto a eles - devido à falta de comunicação com os nossos companheiros de lá, mas não posso deixar de ressaltar o que disse anteriormente: que estas revoluções foram feitas principalmente pelas próprias massas. Na Tunísia, os sindicatos mais fortes tiverem um grande papel nas últimas fases da revolta.
Quero referir um pouco mais aos comitês locais criados pelas massas, uma das manifestações mais interessantes da sua ação revolucionária. Perante a pilhagem, iniciada sobretudo pela polícia secreta, o povo criou os ditos comitês como instituições realmente democráticas, como uma competência real de oposição às instituições autoritárias… No Egito até ao dia de hoje os governos, os comitês locais e o governo de Mubarak escondiam-se atrás dos tanques e das espingardas dos seus soldados. Isto está a suceder numa região assolada por ditaduras e pelo autoritarismo... Isso é o grandioso das revoluções que transformam o mundo rapidamente. Isto não significa que a luta esteja ganha, pelo contrário, isto significa que a luta real acaba de começar.
Pergunta > Para resumir, qual o seu ponto de vista sobre os acontecimentos? O que pensa que simbolizam?
Mazen < É o começo de uma nova era, as massas estão se sublevando e a sua liberdade está em jogo, as tiranias tombam... Sem dúvida estamos a assistir ao nascimento de um mundo novo.
Tradução > Liberdade à Solta
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Mubarak se vai, o povo fica! Reflexões em torno dos protestos no Egito e no mundo árabe
Por José Antonio Gutiérrez D.
O povo norte-africano e árabe converteu-se em um ator político que já não pode ser ignorado. Aconteça o que acontecer, já escreveram a história.
Sem sombra de dúvidas, as esplêndidas manifestações e mobilizações de massa que hoje agitam o mundo árabe representam um dos acontecimentos mais significativos desde o colapso dos chamados “socialismos reais” em 1989-1990. Poderíamos dizer que se inaugura uma nova era para os povos de todo o mundo, não somente por sua radicalidade, mas também pela importância estratégica do Oriente Médio no cenário internacional. O alcance que estas mobilizações podem ter é inimaginável.
O que começou na Tunísia como um protesto contra o aumento do custo de vida, o desemprego e o preço dos alimentos rapidamente se espalhou até converter-se em uma demonstração formidável de poder popular e de desafio às ditaduras senis, generosamente abençoadas pelos dólares dos imperialismos francês e norte-americano. Partindo da Tunísia, as manifestações se estenderam à Argélia, Jordânia, Yémen e Egito [1].
Este fantasma revolucionário que está assolando o mundo árabe fez com que as ditaduras da região tremessem, ao ponto de um velho autocrata como o rei Abdullah da Jordânia, em meio aos primeiros sintomas de descontentamento em seu país, trocar seu primeiro-ministro como forma de se livrar um pouco da pressão antes que a as mobilizações irrompessem em seu reino. Nada está seguro, sequer o vacilante regime colaboracionista de Abu Mazen (M. Abbas), cuja “autoridade palestina” - disposta a ceder tudo em troca de nada - fora recentemente desmascarada, graças ao Wikileaks, em suas vis negociações feitas às costas do povo palestino. Este cenário incerto causa calafrios em Washington, Tel Aviv, Bruxelas, Paris, que durante décadas têm acreditado que a linha dura manteria o povo árabe jogado a escanteio.
Ainda que se possa dizer que estas mobilizações tenham sido “inesperadas”, ao menos em sua extensão e profundidade, são parte de um profundo mal-estar que vem sendo acumulado há décadas e que estava aguardando o momento propício para se manifestar. Ao menos no Egito, estas manifestações vêem coroar cinco anos de lutas locais e parciais, desde greves muito combativas até os pequenos levantamentos de Mahalla e Borollos em 2008. O mesmo ocorre em outros países do Norte da África, onde o sindicalismo se caracterizou por um aumento em seu nível de combatividade nos últimos anos e onde a base militante tem ganho considerável autonomia, apesar das mansas direções. Se a isto somarmos o crescente mal-estar provocado pela “Guerra contra o Terrorismo” e as agressões imperialistas no Oriente Médio, assim como a corrupção, a crescente pobreza e o desemprego, podemos ver que todas as condições para as manifestações existiam desde há bastante tempo, e restava somente a faísca para incendiar este barril de pólvora.
Mubarak cai, o povo permanece! Rumo a um “Argentinazo” egípcio?
O Egito tem sido agitado por manifestações de grande envergadura, que crescem dia após dia. Hoje, 1 de fevereiro, mais de um milhão de pessoas saiu às ruas para derrubar Mubarak. É de se esperar que nos próximos dias estes números continuem crescendo e que as manifestações de rua sejam acompanhadas por uma greve geral. Estas mobilizações lembram-nos as que há uma década puseram em causa o Consenso de Washington na América Latina, reconfigurando o panorama político regional, derrubando mais de um governo e abrindo caminho para experiências radicalizadas de poder popular construído a partir das bases em luta. As palavras de ordem proclamadas pelos manifestantes parecem um eco do “Que se vayan todos!” gritado pelo povo argentino em dezembro de 2001.
Da mesma forma, estes protestos têm sido impulsionados pelas pessoas comuns, sem organizações que liderem a crescente onda de manifestações, que atinge quase toda a população, independentemente de crenças religiosas, gênero, faixa etária ou de tradições políticas; até mesmo a classe média e setores da elite estão se somando às manifestações fundamentalmente alimentadas pelos setores mais empobrecidos do Egito, trabalhadores, desempregados e estudantes.
O bloqueio do acesso à internet e à rede de celulares [telemóveis] não impediu que as manifestações continuassem a aumentar e que as notícias circulassem por outros canais de comunicação, inclusive o tradicional “correio boca a boca”. A repressão policial dos primeiros dias não foi capaz de conter os manifestantes, ainda que se calcule que já existam mais de 300 pessoas mortas. Além disso, quando alguns policiais começaram a se juntar aos manifestantes, Mubarak decidiu colocar o exército nas ruas – mas as imagens de confraternização com o povo em luta não tardaram a circular pelo mundo. Ainda em meio à grande mobilização convocada hoje, o exército assegurou que não reprimiria a população e que suas reivindicações eram legítimas: segundo certas autoridades norte-americanas, alguns oficiais vinculados ao regime estariam tentando desgastar as manifestações mediante a indiferença, mas isto não passa de mera especulação. O fato é que, neste momento, o exército não está reprimindo e tem entregue as ruas às mobilizações. Por quanto tempo? Isso é algo que não sabemos e seria um grande erro que o povo egípcio contasse com a natureza “nacionalista” de seu exército, pois afinal de contas é um exército alimentado por Washington e, como toda estrutura da classe dominante, em última instância seu objetivo é defender o status quo e não derrotá-lo.
Este cenário não deixa outra alternativa ao desanimado Mubarak que avançar com certas reformas de modo a acalmar a situação. Depois de quase uma semana de crescentes manifestações, modificou seu gabinete e anunciou a sua disposição em dialogar com a oposição, com o objetivo de partilhar algum poder. Mas de nada serviram estas concessões de última hora ante a determinação de luta de um povo em fúria e farto de tolerar sua tirania de três décadas: o povo respondeu fortalecendo a manifestação até ele se demitir, dando-lhe como prazo final esta sexta feira.
Já era tarde demais para mudar o rumo; já não se podia voltar atrás. Agora, a única coisa a discutir é a saída de Mubarak; há alguns minutos ele anunciava na rede nacional de rádio e televisão que não pleitearia outro mandato e que se esforçaria até setembro para assegurar uma transição pacífica. Fica em aberto qual será a reação popular ante este anúncio, mas o povo egípcio sabe que não pode perder o embalo e que dificilmente este momento se repetirá. Podemos afirmar com certeza que este novo intento de esfriar o movimento dará com os burros na água e será abatido pela verdadeira palavra de ordem do momento: “Fora Mubarak já! Não em Setembro, Agora!” Espontaneamente, as massas apareciam nos televisores cantando “Por Deus, Por Deus, que esta seja sua última noite”.
A dimensão ianque-sionista da crise: buscando uma “mudança” cosmética
Não é por acaso que entre as palavras de ordem gritadas na praça Tahrir na cidade do Cairo, epicentro das manifestações, as menções a Mubarak como um “covarde” fantoche dos EUA e de Israel sejam predominantes, ou que Mubarak seja representado por figuras com dólares em seus bolsos e com estrelas de David em seu traje e em sua gravata. O Egito é um dos dois países na região, junto com a Jordânia, que firmou um tratado de paz com Israel e é o segundo maior beneficiário da cooperação militar por parte dos EUA, embolsando nada mais nada menos do que U$ 1.300.000.000 anualmente, somente por este tratado.
Obviamente que os EUA estão preocupados com a situação atual. Suas declarações hipócritas na semana passada, dizendo que esperavam que Mubarak realizasse reformas democráticas profundas, não enganaram ninguém. Tais demandas norte-americanas de reformas ao regime egípcio não só chegaram com três décadas de atraso, como também seu cinismo se evidencia pela sistemática ajuda militar que tem proporcionado à ditadura de Mubarak, o qual jamais teria se mantido no poder por tanto tempo sem o respaldo ianque; e também porque até à pouco Washington não desperdiçava nenhuma oportunidade de lisonjear seu “fiel aliado” Mubarak, como o próprio Obama demonstrou em sua visita de 2009 ao Egito ou quando recebeu Mubarak em setembro passado em Washington.
Por sua vez, o primeiro-ministro de Israel, “Bibi” Netanyahu, já manifestou sua preocupação pelos acontecimentos no Egito, país que tem sido chave no bloqueio medieval a Gaza e que é seu mais firme aliado político e militar na região. Israel não deixa de ver com preocupação que um regime político egípcio que não seja considerado “amigo” teria à sua disposição um modelo de exército desenvolvido graças a várias décadas de ajuda militar norte-americana. Da mesma forma, a instabilidade política regional está tendo grandes repercussões sobre a juventude de Gaza e da Cisjordânia, onde muitos jovens palestinos vêem que chegou a hora de uma nova intifada. Segundo todos os cálculos, seja qual for o regime que se imponha no Egito, haverá um sério revés para a criminosa política de bloqueio contra Gaza, com todas as repercussões que isto possa ter para Israel e para a luta do povo palestino.
Os EUA enviaram Frank Wisner, ex-embaixador e amigo pessoal de Mubarak, para comunicar-lhe que chegara sua vez e que, depois de pesar o custo político de manter seu aliado, acabaram por se convencer de que sua estratégia regional pode ser melhor servida por uma limitada “abertura democrática”. O imperialismo, afinal de contas, não possui amigos e sim interesses. A necessidade de impulsionar esta “abertura democrática” de maneira controlada a partir de Washington tem sido enfatizada por diversos estadistas ocidentais, que têm chamado a atenção para uma transição “ordenada”, eufemismo utilizado para afirmar o intuito de mudar as coisas cosmeticamente, para que nada mude em realidade. Os esforços diplomáticos neste sentido parecem se encontrar em um estado avançado e os EUA entraram em uma fase de contatos frenéticos com setores do exército e da oposição: a embaixadora norte-americana no Egito, Margaret Scobey, já deu início às conversações com o líder reformista Mohamed ElBaradei, o principal candidato para suceder no poder ao tirano Mubarak. Dessa forma esperam, talvez, forjar as condições para uma mudança de regime que garanta os interesses geopolíticos do imperialismo e do regime sionista.
O que preferem ignorar com estes malabarismos diplomáticos é que milhões de egípcios já estão nas ruas e são eles, a essa hora, quem tem a iniciativa nas mãos e quem estabelecerá limites ao processo político posterior à queda iminente de Mubarak. Obviamente, o povo egípcio está consciente de que sua mensagem deve ser escutada em Washington, pois é ali onde reside o amo, do qual Mubarak não passa de um marionete: por isso que vemos uma imensidão de cartazes em inglês nas manifestações.
Rumo a um internacionalismo com características renovadas
Essas colossais manifestações têm amplas repercussões em todo o mundo e devem nos levar a repensar o âmbito de um novo internacionalismo na era do capitalismo globalizado. Primeiramente, e de forma mais evidente, essa onda de manifestações ocorre em ditaduras submissas aos EUA e que colaboraram de maneira entusiasta com a “Guerra contra o Terrorismo”, o que tem significado uma habilidosa desculpa para suprimir sua própria dissidência interna. Por isso, implica um duro golpe para a estratégia dos EUA no Oriente Médio, a qual está em colapso e caindo aos pedaços. O golpe político que significaria a queda do principal aliado árabe dos EUA, Mubarak, se somaria ao golpe que já receberam no Líbano com a queda de Hariri e a ascensão ao poder de um primeiro-ministro aliado ao Hizbullah, além dos golpes militares que os atingiram incessantemente no Iraque e no Afeganistão.
Quiçá tentem se adaptar a este cenário de transição, substituindo o Egito como seu principal pilar no mundo árabe pela Arábia Saudita, país com o qual os EUA estão assinando neste momento seu maior acordo comercial-militar de todos os tempos, com uma venda de U$60.000.000 em aviões militares, acrescida das negociações que têm mantido em relação a sistemas de defesa antimísseis e de renovação da força naval [2].
Mas, além das óbvias implicações que esta autêntica revolução provoca na estratégia geopolítica norte-americana para o Oriente Médio, o alcance internacional destas manifestações não pode ser minimizado se considerarmos que estão inseridas em um contexto de crise global do capitalismo. Não se trata aqui de um mero episódio árabe, como tentou nos convencer a CNN. Estamos ante protestos cujas origens se encontram em um problema tão universal como é o preço dos alimentos, que foi o catalisador das grandes mobilizações de 2008 em lugares tão distintos e distantes como Filipinas e Haiti. Obviamente, em cada país o descontentamento assume caráter e feições distintas, de acordo com as condições locais, mas devemos nos deter nos fatores comuns em jogo para atingir uma visão de conjunto da floresta, que não seja obscurecida pelos particularismos de cada árvore isolada.
O significado real do que se passa no Norte da África pode ser melhor apreciado com um pouco de perspectiva histórica, entendendo este processo, em última instância, como parte de um processo de lutas inacabado, aberto na Argélia em 1956 em oposição ao colonialismo. Hoje se luta contra o neocolonialismo e o sistema político-econômico que ele gera. Os povos da Tunísia, do Egito, da Argélia, etc. têm demonstrado com sua luta o erro dessa caricatura paternalista e colonialista, que permeia a esquerda ocidental, de uma população incapacitada de lutar devido ao seu “atraso político” (o qual estaria supostamente arraigado em sua cultura e religião). Estão reafirmando sua capacidade política e demonstrando que a luta popular é patrimônio de todos os povos do mundo, e que a luta revolucionária no Egito terá características particulares e haverá, necessariamente, que responder à sua idiossincrasia. Ainda que devamos aprender uns com os outros, não devemos esperar que a nossa visão se ajuste mecanicamente à visão que surge neste momentos das lutas em Suez, em Alexandria ou no Cairo.
As repercussões desta luta devem necessariamente ser globais. O povo árabe está dando um exemplo a ser seguido, não somente para os demais países da região, que é a mensagem que os grandes meios de comunicação buscam nos passar com a clara intenção de conter as consequências destas manifestações. Seu exemplo suscita esperança em todos os povos e é um exemplo a se seguir nos quatro cantos do mundo, independentemente das particularidades que existam e dos discursos sobre os supostos “choque de civilizações”.
Dimensão e limites das manifestações espontâneas
Como já temos afirmado, um exemplo notável desta nova “Intifada” é o seu caráter espontâneo. Sem sombra de dúvidas que a experiência passada de lutas foi consolidando o caminho para estas novas manifestações; sem sombra de dúvidas, a experiência de solidariedade com a luta do povo palestino e contra as aventuras imperiais em países como o Iraque e o Afeganistão consolidaram, ideologicamente, a resistência a estes regimes neocoloniais cúmplices do imperialismo. Mas também é inegável que a luta se desenvolveu sem seguir um plano traçado de antemão e que as massas que tomaram as ruas em vários países árabes não obedecem a um centro nem a líderes carismáticos. É a raiva, a frustração, a fome o que mantém o povo nas ruas, e é um sentimento adquirido de seu poder coletivo o que proporciona a coesão em torno da demanda de mudança do regime.
E este é um dos fatores mais importantes: que o povo no Egito, na Tunísia, na Argélia e em outros países tem tomado consciência de seu poder. E pela primeira vez em muito tempo está exercendo este poder para se converter em sujeito de sua própria história; esta é uma transformação em si revolucionária e nada continuará igual depois destas manifestações, porque o povo se constituiu em ator político autônomo por direito próprio. Como afirma um cartaz que foi visto durante as manifestações egípcias, “Os egípcios já provaram o gosto da liberdade. Não há retorno”.
Mas uma coisa é ganhar as ruas e outra é tomar as rédeas dos meios de produção, das minas, das fábricas, das empresas, das oficinas, dos supermercados. É nestes locais que se disputa a batalha definitiva, a qual não é outra coisa se não uma batalha contra o capitalismo, pois em última instância este regime, ou outros que possam suceder-lhe, estão enraizados neste modelo social e econômico baseado na miséria e na desigualdade.
Quiçá um dos elementos que mais proporcione esperança é que o povo, tanto na Tunísia como no Egito, tem formado comitês populares de maneira espontânea, os quais se converteram de fato em organismos de duplo poder, enfrentando as instituições autoritárias. Graças à espontaneidade das manifestações, a criatividade popular se expressou sem entraves de nenhum tipo e o “soberano” pode demonstrar de forma plena sua capacidade política. Mas a espontaneidade, ainda que tenha permitido o desenvolvimento incipiente destas novas instituições libertárias, gera a seguinte limitação objetiva: na ausência de projetos históricos que se traduzam em programas revolucionários, que possam constituir alternativas estratégicas ao atual sistema político-social, a iniciativa espontânea das massas apenas se desenvolve para cobrir o vazio de poder objetivo, mas não para projetar-se estrategicamente. Assim, o duplo poder é compreendido como uma tática de luta, mas não como o gérmem da sociedade a se construir. É quando se dá este salto que estamos ante um movimento conscientemente revolucionário.
Anteriormente, já fizemos reflexões semelhantes a respeito da experiência argentina [3] e boliviana no início do século XXI, onde a iniciativa popular formou redes sociais horizontais, libertárias, um poder popular efetivamente emanado de baixo, à margem do controle estatal e em clara contradição com o mesmo, para que logo esta criatividade se canalizasse em função da conquista do velho aparelho de Estado. Como expressávamos em um artigo de 2005 sobre a Bolívia:
“várias mobilizações nos últimos anos têm adquirido um indubitável radicalismo, têm posto em causa na prática as próprias bases do sistema e têm esboçado mecanismos libertários e populares de organização e luta. Mas nos momentos decisivos, a visão reformista (o Estado pode ser reformado, se reivindica uma Assembléia Constituinte, se exigem nacionalizações, como se tudo isto fossem soluções por si próprias, ou inclusive, passos invitáveis para tais soluções) tem conquistado terreno e se imposto […] Novamente, o povo boliviano parece não haver alcançado uma consciência orgânica de que as soluções para os seus problemas profundos assenta somente nele mesmo, à margem de instituições concebidas para excluir as maiorias e correspondentes aos interesses das elites republicanas. Esta consciência é a única que pode dar uma projeção estratégica, e portanto revolucionária, às [suas] iniciativas [de organização durante a luta].” [4]
O desafio não é menor; como comprovamos de forma igualmente trágica na Argentina, ante a ausência de um programa revolucionário que permita uma saída definitiva da crise em favor do povo, o sistema - com todos os seus políticos e empresários por detrás - conseguiu se recompor a médio prazo, com suas instituições fortalecidas após a crise. Não pretendemos com isto dar uma receita, de que não dispomos, mas estamos simplesmente indicando o perigo de, na ausência de um projeto forjado pelo povo em luta, restabelecer-se obrigatoriamente o velho regime que se pretendia derrotar.
No caso egípcio, pelo menos, o papel do exército é visto pelo povo como o de um árbitro, o qual pode dar à atual crise uma saída afim aos interesses populares. É necessário reafirmar que nem no Egito nem em qualquer outro lugar do mundo a instituição castrense desempenha um papel neutro ou afim a um projeto emancipador. Confiar a solução política às mãos do exército é um ato suicida. Também a propósito do caso boliviano afirmamos:
“Uma crise institucional e do sistema, que perpetue a incapacidade burguesa para manter uma sociedade funcional, mas que revele a falta de maturidade do proletariado para sacudir o jugo de sua opressão de classe, traz consigo o risco da ordem burguesa manu militari [por obra do exército]. Historicamente, a ausência de uma classe organizada e forte, ao mesmo tempo consciente de seu papel histórico, com projetos que o representem integral e orgânicamente – abre caminho aos caudilhos militares, sejam de esquerda ou de direita […] Hoje, a falta de visão estratégica e revolucionária em uma classe trabalhadora e em massas populares que se sublevam e exigem seu direito a uma vida livre e digna pode levar ao risco de aparecer o caudilhismo militar, em um momento em que o poder de uma classe se desvanece e o de outra começa a se delinear. Não podemos deixar de ver com um pouco de preocupação que certos setores da esquerda boliviana não encarem com maus olhos uma saída cívico-militar para a crise, ou as declarações do almirante Aranda, que mostram uma certa predisposição para esta saída. Isto confere maior urgência à necessidade de um projeto nascido no seio da classe trabalhadora e que conte somente com seus próprios meios.” [5]
A única lição que podemos compartilhar com nossos companheiros do Egito é que não se devem esperar soluções vindas de cima nem nos estreitos limites das instituições vigentes. As únicas respostas surgirão do próprio povo, que em sua luta vem criando as suas próprias instituições, as quais hão de ser modelo para seu próprio futuro. Nesta luta, é necessário que busquem um espaço para que os diversos atores sociais, políticos e religiosos participantes deste protesto consigam encontrar uma base de acordo, uma plataforma básica, em torno da qual reúnam as reivindicações populares mais profundas.
E para forjar este pacto de luta básico enfrentam uma corrida contra o tempo, pois ainda que as revoluções se desenvolvam em períodos relativamente prolongados, durante os quais o povo adquire experiência de luta e se acumulam tensões, o período de crise revolucionária aberta, em que a realidade social se torna plástica e a criatividade popular pode dar forma a uma visão alternativa de sociedade, é relativamente curto. Desperdiçado esse momento, a iniciativa regressa aos que monopolizam o poder; é nesse breve período que devemos aprender a fazer a balança inclinar o máximo possível para o lado do povo: “A história não demonstra misericórdia com o movimento revolucionário, nunca esperou que se constitua a vanguarda necessária, a direção correta, para que a classe atue como um só bloco; não importa o quanto se possa sonhar como poderia ter sido o movimento. As revoluções, as insurreições são o que são e devemos aprender a canalizá-las em um sentido afim aos interesses populares.” [6]
A crise está aberta; sua resolução está agora nas mãos do próprio povo egípcio e, consoante o que suceder nos próximos dias, dependerá o efeito de dominó nos países árabes. Os EUA e os tiranos da região estão conscientes da necessidade de frear esta escalada em algum momento. Podemos esperar que para isso exerçam todas as medidas diplomáticas e políticas necessárias e que, se estas não produzirem os resultados desejados, acabem em breve por recorrer à força bruta. Mas o povo egípcio tampouco parece disposto a ceder a qualquer tipo de pressões. Os próximos dias serão decisivos para o futuro da região.
O que está claro é que o povo norte-africano e árabe se converteu em um ator político que já não pode ser ignorado. Aconteça o que acontecer, já escreveram a história.
PS. Ao finalizar estas notas, não posso disfarçar minha enorme alegria ante estes acontecimentos. Vivemos tempos de aguda crise e sentimos que as lutas em nossas terras nem sempre vão tão longe quanto gostaríamos. É por isso que esta nova intifada nos devolve a alma ao corpo, nos enche de esperança ante o porvir, em meio das dificuldades que vivemos e que nos recordam que as revoluções começam onde menos as esperamos. A única coisa que podemos fazer, enquanto isso, é preparar o terreno onde quer que nos encontremos.
1º de Fevereiro, 2011
Notas
[1] Sobre a rebelião da Tunísia, verificar o seguinte artigo http://www.anarkismo.net/article/18462 e a seguinte declaração http://www.anarkismo.net/article/18662. [Nota do Passa Palavra: Também sugerimos a leitura do artigo: http://passapalavra.info/?p=34893]
[2] http://www.lavanguardia.es/internacional/noticias/20101….html
[3] Sobre a Argentina, verificar o artigo “Workers without Bosses”, publicado na revista Red & Black Revolution No. 8, 2004.
[4] http://www.anarkismo.net/article/1674
[5] Ibid.
[6] Ibid.
Tradução: Daniel Augusto de Almeida Alves
Texto Original retirado de PassaPalavra: http://passapalavra.info/?p=35635#more-35635 em 4 de fevereiro de 2011.
Por José Antonio Gutiérrez D.
O povo norte-africano e árabe converteu-se em um ator político que já não pode ser ignorado. Aconteça o que acontecer, já escreveram a história.
Sem sombra de dúvidas, as esplêndidas manifestações e mobilizações de massa que hoje agitam o mundo árabe representam um dos acontecimentos mais significativos desde o colapso dos chamados “socialismos reais” em 1989-1990. Poderíamos dizer que se inaugura uma nova era para os povos de todo o mundo, não somente por sua radicalidade, mas também pela importância estratégica do Oriente Médio no cenário internacional. O alcance que estas mobilizações podem ter é inimaginável.
O que começou na Tunísia como um protesto contra o aumento do custo de vida, o desemprego e o preço dos alimentos rapidamente se espalhou até converter-se em uma demonstração formidável de poder popular e de desafio às ditaduras senis, generosamente abençoadas pelos dólares dos imperialismos francês e norte-americano. Partindo da Tunísia, as manifestações se estenderam à Argélia, Jordânia, Yémen e Egito [1].
Este fantasma revolucionário que está assolando o mundo árabe fez com que as ditaduras da região tremessem, ao ponto de um velho autocrata como o rei Abdullah da Jordânia, em meio aos primeiros sintomas de descontentamento em seu país, trocar seu primeiro-ministro como forma de se livrar um pouco da pressão antes que a as mobilizações irrompessem em seu reino. Nada está seguro, sequer o vacilante regime colaboracionista de Abu Mazen (M. Abbas), cuja “autoridade palestina” - disposta a ceder tudo em troca de nada - fora recentemente desmascarada, graças ao Wikileaks, em suas vis negociações feitas às costas do povo palestino. Este cenário incerto causa calafrios em Washington, Tel Aviv, Bruxelas, Paris, que durante décadas têm acreditado que a linha dura manteria o povo árabe jogado a escanteio.
Ainda que se possa dizer que estas mobilizações tenham sido “inesperadas”, ao menos em sua extensão e profundidade, são parte de um profundo mal-estar que vem sendo acumulado há décadas e que estava aguardando o momento propício para se manifestar. Ao menos no Egito, estas manifestações vêem coroar cinco anos de lutas locais e parciais, desde greves muito combativas até os pequenos levantamentos de Mahalla e Borollos em 2008. O mesmo ocorre em outros países do Norte da África, onde o sindicalismo se caracterizou por um aumento em seu nível de combatividade nos últimos anos e onde a base militante tem ganho considerável autonomia, apesar das mansas direções. Se a isto somarmos o crescente mal-estar provocado pela “Guerra contra o Terrorismo” e as agressões imperialistas no Oriente Médio, assim como a corrupção, a crescente pobreza e o desemprego, podemos ver que todas as condições para as manifestações existiam desde há bastante tempo, e restava somente a faísca para incendiar este barril de pólvora.
Mubarak cai, o povo permanece! Rumo a um “Argentinazo” egípcio?
O Egito tem sido agitado por manifestações de grande envergadura, que crescem dia após dia. Hoje, 1 de fevereiro, mais de um milhão de pessoas saiu às ruas para derrubar Mubarak. É de se esperar que nos próximos dias estes números continuem crescendo e que as manifestações de rua sejam acompanhadas por uma greve geral. Estas mobilizações lembram-nos as que há uma década puseram em causa o Consenso de Washington na América Latina, reconfigurando o panorama político regional, derrubando mais de um governo e abrindo caminho para experiências radicalizadas de poder popular construído a partir das bases em luta. As palavras de ordem proclamadas pelos manifestantes parecem um eco do “Que se vayan todos!” gritado pelo povo argentino em dezembro de 2001.
Da mesma forma, estes protestos têm sido impulsionados pelas pessoas comuns, sem organizações que liderem a crescente onda de manifestações, que atinge quase toda a população, independentemente de crenças religiosas, gênero, faixa etária ou de tradições políticas; até mesmo a classe média e setores da elite estão se somando às manifestações fundamentalmente alimentadas pelos setores mais empobrecidos do Egito, trabalhadores, desempregados e estudantes.
O bloqueio do acesso à internet e à rede de celulares [telemóveis] não impediu que as manifestações continuassem a aumentar e que as notícias circulassem por outros canais de comunicação, inclusive o tradicional “correio boca a boca”. A repressão policial dos primeiros dias não foi capaz de conter os manifestantes, ainda que se calcule que já existam mais de 300 pessoas mortas. Além disso, quando alguns policiais começaram a se juntar aos manifestantes, Mubarak decidiu colocar o exército nas ruas – mas as imagens de confraternização com o povo em luta não tardaram a circular pelo mundo. Ainda em meio à grande mobilização convocada hoje, o exército assegurou que não reprimiria a população e que suas reivindicações eram legítimas: segundo certas autoridades norte-americanas, alguns oficiais vinculados ao regime estariam tentando desgastar as manifestações mediante a indiferença, mas isto não passa de mera especulação. O fato é que, neste momento, o exército não está reprimindo e tem entregue as ruas às mobilizações. Por quanto tempo? Isso é algo que não sabemos e seria um grande erro que o povo egípcio contasse com a natureza “nacionalista” de seu exército, pois afinal de contas é um exército alimentado por Washington e, como toda estrutura da classe dominante, em última instância seu objetivo é defender o status quo e não derrotá-lo.
Este cenário não deixa outra alternativa ao desanimado Mubarak que avançar com certas reformas de modo a acalmar a situação. Depois de quase uma semana de crescentes manifestações, modificou seu gabinete e anunciou a sua disposição em dialogar com a oposição, com o objetivo de partilhar algum poder. Mas de nada serviram estas concessões de última hora ante a determinação de luta de um povo em fúria e farto de tolerar sua tirania de três décadas: o povo respondeu fortalecendo a manifestação até ele se demitir, dando-lhe como prazo final esta sexta feira.
Já era tarde demais para mudar o rumo; já não se podia voltar atrás. Agora, a única coisa a discutir é a saída de Mubarak; há alguns minutos ele anunciava na rede nacional de rádio e televisão que não pleitearia outro mandato e que se esforçaria até setembro para assegurar uma transição pacífica. Fica em aberto qual será a reação popular ante este anúncio, mas o povo egípcio sabe que não pode perder o embalo e que dificilmente este momento se repetirá. Podemos afirmar com certeza que este novo intento de esfriar o movimento dará com os burros na água e será abatido pela verdadeira palavra de ordem do momento: “Fora Mubarak já! Não em Setembro, Agora!” Espontaneamente, as massas apareciam nos televisores cantando “Por Deus, Por Deus, que esta seja sua última noite”.
A dimensão ianque-sionista da crise: buscando uma “mudança” cosmética
Não é por acaso que entre as palavras de ordem gritadas na praça Tahrir na cidade do Cairo, epicentro das manifestações, as menções a Mubarak como um “covarde” fantoche dos EUA e de Israel sejam predominantes, ou que Mubarak seja representado por figuras com dólares em seus bolsos e com estrelas de David em seu traje e em sua gravata. O Egito é um dos dois países na região, junto com a Jordânia, que firmou um tratado de paz com Israel e é o segundo maior beneficiário da cooperação militar por parte dos EUA, embolsando nada mais nada menos do que U$ 1.300.000.000 anualmente, somente por este tratado.
Obviamente que os EUA estão preocupados com a situação atual. Suas declarações hipócritas na semana passada, dizendo que esperavam que Mubarak realizasse reformas democráticas profundas, não enganaram ninguém. Tais demandas norte-americanas de reformas ao regime egípcio não só chegaram com três décadas de atraso, como também seu cinismo se evidencia pela sistemática ajuda militar que tem proporcionado à ditadura de Mubarak, o qual jamais teria se mantido no poder por tanto tempo sem o respaldo ianque; e também porque até à pouco Washington não desperdiçava nenhuma oportunidade de lisonjear seu “fiel aliado” Mubarak, como o próprio Obama demonstrou em sua visita de 2009 ao Egito ou quando recebeu Mubarak em setembro passado em Washington.
Por sua vez, o primeiro-ministro de Israel, “Bibi” Netanyahu, já manifestou sua preocupação pelos acontecimentos no Egito, país que tem sido chave no bloqueio medieval a Gaza e que é seu mais firme aliado político e militar na região. Israel não deixa de ver com preocupação que um regime político egípcio que não seja considerado “amigo” teria à sua disposição um modelo de exército desenvolvido graças a várias décadas de ajuda militar norte-americana. Da mesma forma, a instabilidade política regional está tendo grandes repercussões sobre a juventude de Gaza e da Cisjordânia, onde muitos jovens palestinos vêem que chegou a hora de uma nova intifada. Segundo todos os cálculos, seja qual for o regime que se imponha no Egito, haverá um sério revés para a criminosa política de bloqueio contra Gaza, com todas as repercussões que isto possa ter para Israel e para a luta do povo palestino.
Os EUA enviaram Frank Wisner, ex-embaixador e amigo pessoal de Mubarak, para comunicar-lhe que chegara sua vez e que, depois de pesar o custo político de manter seu aliado, acabaram por se convencer de que sua estratégia regional pode ser melhor servida por uma limitada “abertura democrática”. O imperialismo, afinal de contas, não possui amigos e sim interesses. A necessidade de impulsionar esta “abertura democrática” de maneira controlada a partir de Washington tem sido enfatizada por diversos estadistas ocidentais, que têm chamado a atenção para uma transição “ordenada”, eufemismo utilizado para afirmar o intuito de mudar as coisas cosmeticamente, para que nada mude em realidade. Os esforços diplomáticos neste sentido parecem se encontrar em um estado avançado e os EUA entraram em uma fase de contatos frenéticos com setores do exército e da oposição: a embaixadora norte-americana no Egito, Margaret Scobey, já deu início às conversações com o líder reformista Mohamed ElBaradei, o principal candidato para suceder no poder ao tirano Mubarak. Dessa forma esperam, talvez, forjar as condições para uma mudança de regime que garanta os interesses geopolíticos do imperialismo e do regime sionista.
O que preferem ignorar com estes malabarismos diplomáticos é que milhões de egípcios já estão nas ruas e são eles, a essa hora, quem tem a iniciativa nas mãos e quem estabelecerá limites ao processo político posterior à queda iminente de Mubarak. Obviamente, o povo egípcio está consciente de que sua mensagem deve ser escutada em Washington, pois é ali onde reside o amo, do qual Mubarak não passa de um marionete: por isso que vemos uma imensidão de cartazes em inglês nas manifestações.
Rumo a um internacionalismo com características renovadas
Essas colossais manifestações têm amplas repercussões em todo o mundo e devem nos levar a repensar o âmbito de um novo internacionalismo na era do capitalismo globalizado. Primeiramente, e de forma mais evidente, essa onda de manifestações ocorre em ditaduras submissas aos EUA e que colaboraram de maneira entusiasta com a “Guerra contra o Terrorismo”, o que tem significado uma habilidosa desculpa para suprimir sua própria dissidência interna. Por isso, implica um duro golpe para a estratégia dos EUA no Oriente Médio, a qual está em colapso e caindo aos pedaços. O golpe político que significaria a queda do principal aliado árabe dos EUA, Mubarak, se somaria ao golpe que já receberam no Líbano com a queda de Hariri e a ascensão ao poder de um primeiro-ministro aliado ao Hizbullah, além dos golpes militares que os atingiram incessantemente no Iraque e no Afeganistão.
Quiçá tentem se adaptar a este cenário de transição, substituindo o Egito como seu principal pilar no mundo árabe pela Arábia Saudita, país com o qual os EUA estão assinando neste momento seu maior acordo comercial-militar de todos os tempos, com uma venda de U$60.000.000 em aviões militares, acrescida das negociações que têm mantido em relação a sistemas de defesa antimísseis e de renovação da força naval [2].
Mas, além das óbvias implicações que esta autêntica revolução provoca na estratégia geopolítica norte-americana para o Oriente Médio, o alcance internacional destas manifestações não pode ser minimizado se considerarmos que estão inseridas em um contexto de crise global do capitalismo. Não se trata aqui de um mero episódio árabe, como tentou nos convencer a CNN. Estamos ante protestos cujas origens se encontram em um problema tão universal como é o preço dos alimentos, que foi o catalisador das grandes mobilizações de 2008 em lugares tão distintos e distantes como Filipinas e Haiti. Obviamente, em cada país o descontentamento assume caráter e feições distintas, de acordo com as condições locais, mas devemos nos deter nos fatores comuns em jogo para atingir uma visão de conjunto da floresta, que não seja obscurecida pelos particularismos de cada árvore isolada.
O significado real do que se passa no Norte da África pode ser melhor apreciado com um pouco de perspectiva histórica, entendendo este processo, em última instância, como parte de um processo de lutas inacabado, aberto na Argélia em 1956 em oposição ao colonialismo. Hoje se luta contra o neocolonialismo e o sistema político-econômico que ele gera. Os povos da Tunísia, do Egito, da Argélia, etc. têm demonstrado com sua luta o erro dessa caricatura paternalista e colonialista, que permeia a esquerda ocidental, de uma população incapacitada de lutar devido ao seu “atraso político” (o qual estaria supostamente arraigado em sua cultura e religião). Estão reafirmando sua capacidade política e demonstrando que a luta popular é patrimônio de todos os povos do mundo, e que a luta revolucionária no Egito terá características particulares e haverá, necessariamente, que responder à sua idiossincrasia. Ainda que devamos aprender uns com os outros, não devemos esperar que a nossa visão se ajuste mecanicamente à visão que surge neste momentos das lutas em Suez, em Alexandria ou no Cairo.
As repercussões desta luta devem necessariamente ser globais. O povo árabe está dando um exemplo a ser seguido, não somente para os demais países da região, que é a mensagem que os grandes meios de comunicação buscam nos passar com a clara intenção de conter as consequências destas manifestações. Seu exemplo suscita esperança em todos os povos e é um exemplo a se seguir nos quatro cantos do mundo, independentemente das particularidades que existam e dos discursos sobre os supostos “choque de civilizações”.
Dimensão e limites das manifestações espontâneas
Como já temos afirmado, um exemplo notável desta nova “Intifada” é o seu caráter espontâneo. Sem sombra de dúvidas que a experiência passada de lutas foi consolidando o caminho para estas novas manifestações; sem sombra de dúvidas, a experiência de solidariedade com a luta do povo palestino e contra as aventuras imperiais em países como o Iraque e o Afeganistão consolidaram, ideologicamente, a resistência a estes regimes neocoloniais cúmplices do imperialismo. Mas também é inegável que a luta se desenvolveu sem seguir um plano traçado de antemão e que as massas que tomaram as ruas em vários países árabes não obedecem a um centro nem a líderes carismáticos. É a raiva, a frustração, a fome o que mantém o povo nas ruas, e é um sentimento adquirido de seu poder coletivo o que proporciona a coesão em torno da demanda de mudança do regime.
E este é um dos fatores mais importantes: que o povo no Egito, na Tunísia, na Argélia e em outros países tem tomado consciência de seu poder. E pela primeira vez em muito tempo está exercendo este poder para se converter em sujeito de sua própria história; esta é uma transformação em si revolucionária e nada continuará igual depois destas manifestações, porque o povo se constituiu em ator político autônomo por direito próprio. Como afirma um cartaz que foi visto durante as manifestações egípcias, “Os egípcios já provaram o gosto da liberdade. Não há retorno”.
Mas uma coisa é ganhar as ruas e outra é tomar as rédeas dos meios de produção, das minas, das fábricas, das empresas, das oficinas, dos supermercados. É nestes locais que se disputa a batalha definitiva, a qual não é outra coisa se não uma batalha contra o capitalismo, pois em última instância este regime, ou outros que possam suceder-lhe, estão enraizados neste modelo social e econômico baseado na miséria e na desigualdade.
Quiçá um dos elementos que mais proporcione esperança é que o povo, tanto na Tunísia como no Egito, tem formado comitês populares de maneira espontânea, os quais se converteram de fato em organismos de duplo poder, enfrentando as instituições autoritárias. Graças à espontaneidade das manifestações, a criatividade popular se expressou sem entraves de nenhum tipo e o “soberano” pode demonstrar de forma plena sua capacidade política. Mas a espontaneidade, ainda que tenha permitido o desenvolvimento incipiente destas novas instituições libertárias, gera a seguinte limitação objetiva: na ausência de projetos históricos que se traduzam em programas revolucionários, que possam constituir alternativas estratégicas ao atual sistema político-social, a iniciativa espontânea das massas apenas se desenvolve para cobrir o vazio de poder objetivo, mas não para projetar-se estrategicamente. Assim, o duplo poder é compreendido como uma tática de luta, mas não como o gérmem da sociedade a se construir. É quando se dá este salto que estamos ante um movimento conscientemente revolucionário.
Anteriormente, já fizemos reflexões semelhantes a respeito da experiência argentina [3] e boliviana no início do século XXI, onde a iniciativa popular formou redes sociais horizontais, libertárias, um poder popular efetivamente emanado de baixo, à margem do controle estatal e em clara contradição com o mesmo, para que logo esta criatividade se canalizasse em função da conquista do velho aparelho de Estado. Como expressávamos em um artigo de 2005 sobre a Bolívia:
“várias mobilizações nos últimos anos têm adquirido um indubitável radicalismo, têm posto em causa na prática as próprias bases do sistema e têm esboçado mecanismos libertários e populares de organização e luta. Mas nos momentos decisivos, a visão reformista (o Estado pode ser reformado, se reivindica uma Assembléia Constituinte, se exigem nacionalizações, como se tudo isto fossem soluções por si próprias, ou inclusive, passos invitáveis para tais soluções) tem conquistado terreno e se imposto […] Novamente, o povo boliviano parece não haver alcançado uma consciência orgânica de que as soluções para os seus problemas profundos assenta somente nele mesmo, à margem de instituições concebidas para excluir as maiorias e correspondentes aos interesses das elites republicanas. Esta consciência é a única que pode dar uma projeção estratégica, e portanto revolucionária, às [suas] iniciativas [de organização durante a luta].” [4]
O desafio não é menor; como comprovamos de forma igualmente trágica na Argentina, ante a ausência de um programa revolucionário que permita uma saída definitiva da crise em favor do povo, o sistema - com todos os seus políticos e empresários por detrás - conseguiu se recompor a médio prazo, com suas instituições fortalecidas após a crise. Não pretendemos com isto dar uma receita, de que não dispomos, mas estamos simplesmente indicando o perigo de, na ausência de um projeto forjado pelo povo em luta, restabelecer-se obrigatoriamente o velho regime que se pretendia derrotar.
No caso egípcio, pelo menos, o papel do exército é visto pelo povo como o de um árbitro, o qual pode dar à atual crise uma saída afim aos interesses populares. É necessário reafirmar que nem no Egito nem em qualquer outro lugar do mundo a instituição castrense desempenha um papel neutro ou afim a um projeto emancipador. Confiar a solução política às mãos do exército é um ato suicida. Também a propósito do caso boliviano afirmamos:
“Uma crise institucional e do sistema, que perpetue a incapacidade burguesa para manter uma sociedade funcional, mas que revele a falta de maturidade do proletariado para sacudir o jugo de sua opressão de classe, traz consigo o risco da ordem burguesa manu militari [por obra do exército]. Historicamente, a ausência de uma classe organizada e forte, ao mesmo tempo consciente de seu papel histórico, com projetos que o representem integral e orgânicamente – abre caminho aos caudilhos militares, sejam de esquerda ou de direita […] Hoje, a falta de visão estratégica e revolucionária em uma classe trabalhadora e em massas populares que se sublevam e exigem seu direito a uma vida livre e digna pode levar ao risco de aparecer o caudilhismo militar, em um momento em que o poder de uma classe se desvanece e o de outra começa a se delinear. Não podemos deixar de ver com um pouco de preocupação que certos setores da esquerda boliviana não encarem com maus olhos uma saída cívico-militar para a crise, ou as declarações do almirante Aranda, que mostram uma certa predisposição para esta saída. Isto confere maior urgência à necessidade de um projeto nascido no seio da classe trabalhadora e que conte somente com seus próprios meios.” [5]
A única lição que podemos compartilhar com nossos companheiros do Egito é que não se devem esperar soluções vindas de cima nem nos estreitos limites das instituições vigentes. As únicas respostas surgirão do próprio povo, que em sua luta vem criando as suas próprias instituições, as quais hão de ser modelo para seu próprio futuro. Nesta luta, é necessário que busquem um espaço para que os diversos atores sociais, políticos e religiosos participantes deste protesto consigam encontrar uma base de acordo, uma plataforma básica, em torno da qual reúnam as reivindicações populares mais profundas.
E para forjar este pacto de luta básico enfrentam uma corrida contra o tempo, pois ainda que as revoluções se desenvolvam em períodos relativamente prolongados, durante os quais o povo adquire experiência de luta e se acumulam tensões, o período de crise revolucionária aberta, em que a realidade social se torna plástica e a criatividade popular pode dar forma a uma visão alternativa de sociedade, é relativamente curto. Desperdiçado esse momento, a iniciativa regressa aos que monopolizam o poder; é nesse breve período que devemos aprender a fazer a balança inclinar o máximo possível para o lado do povo: “A história não demonstra misericórdia com o movimento revolucionário, nunca esperou que se constitua a vanguarda necessária, a direção correta, para que a classe atue como um só bloco; não importa o quanto se possa sonhar como poderia ter sido o movimento. As revoluções, as insurreições são o que são e devemos aprender a canalizá-las em um sentido afim aos interesses populares.” [6]
A crise está aberta; sua resolução está agora nas mãos do próprio povo egípcio e, consoante o que suceder nos próximos dias, dependerá o efeito de dominó nos países árabes. Os EUA e os tiranos da região estão conscientes da necessidade de frear esta escalada em algum momento. Podemos esperar que para isso exerçam todas as medidas diplomáticas e políticas necessárias e que, se estas não produzirem os resultados desejados, acabem em breve por recorrer à força bruta. Mas o povo egípcio tampouco parece disposto a ceder a qualquer tipo de pressões. Os próximos dias serão decisivos para o futuro da região.
O que está claro é que o povo norte-africano e árabe se converteu em um ator político que já não pode ser ignorado. Aconteça o que acontecer, já escreveram a história.
PS. Ao finalizar estas notas, não posso disfarçar minha enorme alegria ante estes acontecimentos. Vivemos tempos de aguda crise e sentimos que as lutas em nossas terras nem sempre vão tão longe quanto gostaríamos. É por isso que esta nova intifada nos devolve a alma ao corpo, nos enche de esperança ante o porvir, em meio das dificuldades que vivemos e que nos recordam que as revoluções começam onde menos as esperamos. A única coisa que podemos fazer, enquanto isso, é preparar o terreno onde quer que nos encontremos.
1º de Fevereiro, 2011
Notas
[1] Sobre a rebelião da Tunísia, verificar o seguinte artigo http://www.anarkismo.net/article/18462 e a seguinte declaração http://www.anarkismo.net/article/18662. [Nota do Passa Palavra: Também sugerimos a leitura do artigo: http://passapalavra.info/?p=34893]
[2] http://www.lavanguardia.es/internacional/noticias/20101….html
[3] Sobre a Argentina, verificar o artigo “Workers without Bosses”, publicado na revista Red & Black Revolution No. 8, 2004.
[4] http://www.anarkismo.net/article/1674
[5] Ibid.
[6] Ibid.
Tradução: Daniel Augusto de Almeida Alves
Texto Original retirado de PassaPalavra: http://passapalavra.info/?p=35635#more-35635 em 4 de fevereiro de 2011.
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