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sábado, 26 de novembro de 2011

Amazônia: Vida Longa à Sua Majestade


Este vídeo e esta matéria foram publicados originalmente em: http://www.vice.com/pt_br/toxic/toxic-amazon-full-length, estamos divulgando esse vídeo por se tratar de um assunto que permanece presente na sociedade brasileira, as mortes no campo, as mortes de camponeses e camponesas que se organizam e lutam! 
O vídeo denuncia os assassinatos no campo promovidos por ruralistas/escravistas que avançam sobre a floresta. Os assassinatos ocorrem novamente no Pará, no Pará do Eldorado dos Carajpas,  no Pará de Irmã Dorothy, e agora, o Pará de Zé Claudio e Maria.
Esta é a face do "desenvolvimento" na amazônia, é este o modelo de desenvolvimento que fomenta o novo Código Florestal Brasileiro, é em nome deste desenvolvimento, que elimina o nosso povo camponês e indígena, que estamos permitindo que se construa a Belo Monte, eis o fruto do modelo de produção do espaço que está sendo levado a cabo em nosso país!

Uma Crônica de Mortes Anunciadas
Por Felipe Milanez
Fotos por Felipe Milanez & Marcelo Lacerda


Zé Cláudio e a Majestade. A imensa castanheira localizada no lote do assentamento do ambientalista era seu maior orgulho. Foto: Felipe Milanez.

“Verás que um filho teu não foge à luta!” O grito emocionado e estridente da senhora que empunhava o microfone, ao fim do hino nacional cantado no enterro, repetido diversas vezes, ainda ecoa na minha cabeça. Queria a paz da floresta, aquele silêncio marcado por leves ruídos de insetos e do vento balançando a folhagem. Queria limpar a tristeza de um dia marcado por emoções, lamentos e revoltas, e encostar novamente na Majestade. Quem sabe, conseguir falar com ela, como fazia José Cláudio Ribeiro, assassinado por pistoleiros dois dias antes junto de sua esposa, Maria do Espírito Santo, aqui dentro do assentamento onde estou, o Praia Alta Piranheira, em Nova Ipixuna, no sul do Pará, onde também está a Majestade, a maior castanheira do lote do casal. “A maior castanheira que eu já vi na vida, maior castanheira que ele, também, diz já ter visto”, escrevi para a VICE em outubro do ano passado, quando estive aqui, nesse mesmo lugar, na companhia de José e Maria.
Os pistoleiros cortaram friamente a orelha de José para provar o crime e receber o pagamento. Isso porque ele não queria vender a Majestade para virar uma tábua. Nem queria que a terra onde ela estava virasse pasto para boi. Floresta era para continuar sendo a mata. Queria a Majestade viva. Junto dele.
José Cláudio Ribeiro foi assassinado no dia 24 de maio, sete meses depois da matéria publicada. No dia de sua morte, um trecho do texto foi lido no Plenário da Câmara dos Deputados, em Brasília, pelo deputado federal Sarney Filho, do PV. Nessa mesma terça-feira, os deputados aprovaram o Código Florestal, uma lei que coloca em risco as florestas e legaliza desmates. Os ruralistas que estavam na Câmara e ouviram Sarney Filho declarar o assassinato do casal vaiaram a fala do deputado. Vaiaram o cruel vaticínio de uma morte bárbara de duas pessoas inocentes que lutavam para que a terra onde viviam continuasse a ser sua, e a ser uma floresta.

O enterro do casal no Cemitério da Saudade, em Marabá, foi marcado pela presença de uma multidão, que clamava por justiça. Foto: Marcelo Lacerda

No dia seguinte, o enterro do casal foi realizado com uma multidão emocionada e faixas de protesto pedindo por justiça. Nessa mesma tarde, os familiares das vítimas foram até o local onde Maria do Espírito Santo lecionava para crianças dentro do assentamento. Também foram autoridades, deputados, policiais civis, militares e federais. Nos céus, um helicóptero do Ibama compunha o cenário. Por volta das três da tarde, sem chegar a interromper os discursos, sem que nenhum dos presentes se desse conta, Erivelton Pereira da Silva, um jovem colono de 25 anos, era assassinado. Ele poderia ser uma testemunha da morte de José e Maria. Seu corpo em decomposição foi encontrado dentro do assentamento por familiares preocupados com seu desaparecimento apenas no sábado de manhã. A Polícia Civil, informada por eles, pelo Ibama e Polícia Rodoviária Federal, que faziam uma operação contra crimes ambientais na área, chegou apenas à noite, numa busca que mais lembrava um filme de terror.
“É tráfico”, me disse o delegado José Humberto de Melo Jr., que chefia a área de investigações de conflitos agrários, depois de vermos o corpo. José Batista Afonso, advogado da Comissão Pastoral da Terra, atuante defensor dos direitos humanos e quem me apresentou José Cláudio, mostrou-se indignado com o que ele considera imprudência: “É irresponsabilidade descartar a ligação entre os crimes”.
“Tráfico” é uma chancela próxima a um crime sem suspeitas e que dificilmente vai ser desvendado. O inquérito ficou sob a responsabilidade da Polícia Civil de Nova Ipixuna. Erivelton não conseguiu, em vida, produzir um discurso que provocasse uma simpatia nacional ou revolta pelo seu assassinato. Seus familiares ali presentes estavam desolados, desesperados. Sabiam que o caso poderia ficar por isso mesmo. “Isso não pode ficar impune”, me disse, ainda na mata e ao lado do corpo, seu tio João de Sousa Pereira. “Isso vai sair na TV? Vocês vão mostrar na TV?”, me perguntou. Ele sabe que uma pressão externa sobre a polícia local é o meio mais eficaz de fazer com que a investigação avance.

Autoridades vieram se reunir com a comunidade na escola onde Maria dava aula, dentro do assentamento. As mesmas faixas utilizadas no velório foram penduradas nas paredes. Enquanto os políticos falavam, os assentados temiam a presença de um dos suspeitos de ter encomendado o assassinato do casal. Foto: Marcelo Lacerda.

O percurso de dez quilômetros, da casa do irmão de José Cláudio até o Cemitério da Saudade, em Marabá, foi desgastante. Ponte sobre o rio Tocantins. No meio, a Estrada de Ferro Carajás, da Vale, parada, onde queimam pneus que produzem uma fumaça escura, espessa, fúnebre. Charles Trocate, líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, ameaçado de morte por fazendeiros da região de Parauapebas, pegou o microfone que leva até as caixas de som instaladas no capô de um Fiat Uno e disse: “Esse gesto de marchar com eles é o melhor que podemos fazer. Exigindo justiça”. Um grande viva. “Caiu Maria. Caiu José. Mas na mesma hora levantaram 100 Marias e 100 Josés”, dizia uma mulher ao microfone durante o cortejo fúnebre. “Não vamos esquecer.”
No cemitério, outro carro de som organiza a entrada dos caixões. Falas. Microfones. Sindicalistas locais. Representantes. Movimentos sociais. O hino. “Verás que um filho teu não foge à luta.” Emoção. Os coveiros impacientes, apressados. Familiares querendo estender cada minuto. Pedem para abrir o caixão. Último toque. Última imagem.
Laísa Santos Sampaio, irmã de Maria, chora muito. Era amiga, confidente, admiradora da força da irmã. Como ela, era professora da escola. “O nosso cotidiano eram ameaças”, ela me diz. “A gente acordava com os cachorros assustados.” Caminhonete, moto, barulho noturno. Terror. A morte trouxe pânico. “A maioria do assentamento tornou-se inimigo, e torciam para isso acontecer.” Ela quer explicar como o projeto era viável. Como concordava com José e Maria de que valia mais a pena coletar castanha e produzir com as sementes do que vender a tora da árvore. Que não faz sentido transformar a floresta em carvão. Mas está abalada. Maria esteve com ela na manhã de sua morte. Laisa estava na escola quando recebeu a notícia de um “acidente”. Estranhou, sabia que José conduzia bem a moto. “Ele ainda estava vivo quando cortaram a orelha. E não viu ela morrer. Ela estava mais distante”, especula. “Eles se amavam.” Alguns familiares estão em Marabá—ficaram com medo de vir, mesmo com as autoridades.

O corpo de Erivelton Pereira dos Santos e a perícia local. Foto: Marcelo Lacerda.

Falas. Políticos. Todos querem o microfone. Querem audiência. Poucos assentados estão por ali. Menos ainda prestam atenção. Olhares preocupados. Tensão. Medo. O pistoleiro pode ser um deles. Deputado no microfone. Um senhor de idade, desembargador e ouvidor agrário. O gerente do Ibama. Secretário do Ministério do Meio Ambiente. A caixa de som amplifica o que dizem para um público disperso, crianças girando, adultos sentados na grama exaustos, olhares perdidos.
Um sujeito de camisa vermelha chega em uma caminhonete. Uma irmã de José observa estarrecida. Fica nervosa. Desmaia. Gilzão, como ele é conhecido, é próximo do fazendeiro José Rodrigues, um dos suspeitos de encomendar a morte. “Atrevimento”, diz uma irmã. “Cara-de-pau”, a sobrinha. “Não respeitam nem o luto”, comenta outro funcionário público. Comentários sussurrados.
Dois jovens encorpados, vestindo calças pretas e camisetas polos, aproximam-se de Gilzão. São policiais federais. Batem um papo. Cinegrafistas e fotógrafos filmam fingindo não filmar. “Um dos suspeitos está aqui”, diz um funcionário de Brasília. Procuro algum lugar onde possa me abaixar no caso de um tiroteio. Não, não vai ser o caso. A violência, nessa parte da Amazônia, segue a estratégia do terrorismo. Não confronta diretamente. Age de forma sorrateira e cruel, para intimidar no imaginário. Pela expressão de pânico entre os assentados, a estratégia parece ser eficiente. Gilzão é liberado da abordagem e mistura-se aos assentados. Segue junto do grupo que vai até a casa de Maria e José.
Familiares, todos assustados, temiam que o local fosse vandalizado, incendiado, por conter possíveis provas. Retiraram os pertences. Houve mais comoção. Um ambiente muito diferente de quando eu havia estado ali pela primeira vez. Na ocasião, Maria havia preparado uma galinha para o almoço. Um suco de cupuaçu: “O melhor suco de cupuaçu do mundo”, eu tinha dito, não só para agradar a senhora, mas realmente acreditando nisso. “O Zé Cláudio colheu o cupuaçu na floresta”, ela explica.

Zé Cláudio descasca uma noz de castanha nos fundos de sua casa. Ele havia desenvolvido pequenos utensílios que facilitavam o manuseio dos produtos que colhia na floresta. Foto: Felipe Milanez.

Em dezembro, pelo telefone, José Cláudio havia me dito, animado, que as castanhas estavam começando a cair. A floresta daria início à produção característica do período de chuvas, entre dezembro e abril. Nos fundos da casa, onde o casal estendia as castanhas para secar ao sol, a mesa de castanhas estava quase vazia. A engenhoca para descascar as castanhas estava lá—ele colocava a noz na posição vertical e era certeiro com esse abridor, de pressão, de metal. A semente saía limpa, sem resíduos de casca. As castanhas que ele colheu deveriam já ter sido processadas, virado farinha ou óleo.
Na porta de entrada da casa um cartaz desgastado estampa uma foto de Lula. Na parede do quarto de José está estendida uma bandeira do Flamengo. Sobre uma mesa, amontoada de papéis, a fita de pescoço do seu crachá de “palestrante” do TEDxAmazônia, que ocorreu em Manaus, em novembro do ano passado. Claudelice Silva dos Santos, sua irmã mais nova, recolheu a fita e olhou para mim. “Foi você quem convidou ele para ir lá.” Achei que se muita gente soubesse que ele estava marcado para morrer, e outros jornalistas denunciassem o drama dele e de Maria, a pistolagem local poderia se intimidar. A palestra fica disponível na Internet. Mas a conexão na região é lenta. O acesso é complicado. Sequer houve rumores da súbita fama de José Cláudio por ali. Na sua fala, um trecho tem sido repetido após ele ter predestinado sua morte: “Vivo da floresta, protejo ela de todo jeito. Por isso eu vivo com uma bala na cabeça a qualquer hora”.
As autoridades começam a chegar na casa. O senhor ouvidor agrário promete que vai deixar algum funcionário público tomando conta da residência para que não seja destruída. Os do Incra esquivam-se, dizem que não é sua função. A Polícia Federal faz o mesmo. O senhor mostra pulso. A promessa é feita para Claudelice, diante das câmeras—câmera de uma ONG, dos assentados e do cinegrafista que me acompanha, Marcelo Lacerda. A família segue buscando tudo o que pode e enfiando no carro. Gilzão também estava por ali. Algum suspeito poderia estar junto. Algum traidor. “Algum judas”, disse uma irmã de Maria. Alguém que teria informado os mandantes, que teriam informado os pistoleiros para irem “fazer o serviço”.

Zé Cláudio mostra as castanhas que colheu. Elas ficavam em uma mesa de madeira, nos fundos de sua casa, para secar, desidratar e assim permitir que fossem transformadas em farinha e em óleo. Foto: Felipe Milanez.

Eu queria voltar para a Majestade. Rever a linda árvore que Zé Cláudio me mostrou alguns meses antes, cheio de orgulho. As autoridades estavam preocupadas em conhecer o local e dar declarações para a mísera imprensa, que, por sua vez, estava preocupada em fazer seu trabalho. Eu sabia que Zé Cláudio poderia estar por lá, de alguma forma. E decidi correr na direção que havia seguido com ele. Desci a ladeira até o igarapé, passei pelo pé de jambo, cheguei até o açaizal. Sentia que estava sendo guiado. Vieram junto dois ou três amigos dele que achavam conhecer o caminho.
Depois do igarapé, a mata ficou mais fechada. A luz que rebatia na folhagem ganhou um ar esverdeado. Diversas crianças se juntaram na busca pela Majestade, elas gostavam de ir lá brincar. Mas o caminho enganava. Muitas castanheiras, todas com troncos longilíneos, elegantes. Eufórico, eu seguia por cada trilha que surgia e imaginava ser a única. Engano. Alguns gritavam que era mais por cima, outra trilha. Até que parte do grupo a encontrou. “Achei, é aqui”, ouvi uma voz doce e juvenil.
A Majestade foi mostrando sua imponência. À medida que me aproximei dela, as crianças espontaneamente seguraram as mãos umas das outras e rodearam o caule de 11 metros de diâmetro. Sete meses depois eu estava novamente diante desta imponente árvore amazônica. José Cláudio tinha sido enterrado esta manhã. E eu não sabia o que dizer à Majestade. “Esse é o orgulho da nossa floresta. Aqui é a minha propriedade, reserva Izabel Ribeiro, em homenagem ao nome da minha avó. E essa é a Majestade”, foi assim que José Cláudio me apresentou à Majestade. Em seguida, apontou para o chão. O que para mim parecia uma árvore caída, disse ele, “era um galho que caiu dela”. Todas as outras castanheiras ao redor, e eram muitas, seriam filhas da Majestade. “Pode dar uma volta ao redor da Majestade e se perder”, brincou. “Se depender de mim, essa árvore vai ficar por muitos e muitos anos aqui. Mesmo que ela venha a morrer, esse tronco vai ficar aqui.”
Na volta, subi na caçamba de uma caminhonete. Uma irmã de José Cláudio, a mesma que desmaiou, ainda chorava. “Ele sempre falava: ‘Eu tô preparado para morrer porque eu não vim para ser pedra. E quando morrer, quero ser cremado, e minhas cinzas jogadas nos pés da Majestade’.” A família não teve dinheiro para fazer a vontade dele. Clara, sobrinha, também na caçamba do carro, tenta apontar a Majestade no meio da mata. Não encontra. Mesmo imponente, a mata camufla sua copa. Mas ela ainda está lá. No mesmo lugar.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

IIRSA: Caminhos e agentes da pilhagem na América Latina


La Haine - [Ana Esther Ceceña, Tradução de Diário Liberdade]



Há um enorme peso do capital estadunidense nas atividades mais importantes. Isso autoriza a seguir falando do sujeito estadunidense como sujeito hegemônico.

Encontramo-nos atualmente em um momento de crise. Crise sistêmica que não anuncia uma queda ou estalar imediato, mas que é a expressão da vocação mutante do capitalismo e de sua capacidade de adaptação ou readequação às condições mutantes do acontecer não só econômico, mas também social. O caráter sistêmico da crise mostra a insustentabilidade civilizatória do capitalismo, mas não o elimina de maneira natural nem o impede de buscar sua recomposição. A crise dá passo a uma concentração de poder e riqueza muito maior e concede condições de força e ao mesmo tempo de vulnerabilidade um poder cada vez mais exclusivo e excludente que, em sua arrogância, vai colocando em operação mecanismos variados de suporte e de articulação ou coesionar em um entorno crescentemente contraditório.

A crise cíclica, nas circunstâncias atuais, é indicativa da incapacidade do mercado para garantir por si mesmo as condições gerais do processo de acumulação do capital e de apropriação privada da riqueza e, nesse sentido, apela aos mecanismos de contenção social para assegurar aquele que o mercado não consegue fazer coesão e controlar, sobretudo quando a economia capitalista é ao mesmo tempo legal e ilegal. A ninguém escapa que a crise econômica não está tocando os setores ilegais que, sem dúvida, contribuíram a gerá-la e muito provavelmente serão parte de sua solução.

Como queira, a crise exige uma mudança de estratégia e uma mudança de modalidade de dominação que abarca todas as dimensões da organização social, territorial e política do sistema, sobretudo porque a necessidade de restabelecimento das condições gerais de valorização correspondente aos momentos de ajuste cíclico, característicos do funcionamento regular do processo de acumulação de capital, ocorre agora em um contexto de questionamento integral, de crise sistêmica, de incapacidade para resolver internamente a contradição progresso-depredação que provém dos fundamentos mesmos da sociedade capitalista como lugar do domínio da natureza pelo homem.

Por esse motivo, a crise atual não é somente financeira e nem se resolver com subsídios e ajustes estatais ou com fusões e centralização de capital. Isso permite seguir adiante, mas simultaneamente agrava a situação do suicídio técnico no qual se encontra irremediavelmente o capitalismo, apesar de sua capacidade para manter o mundo inteiro sob suas regras de funcionamento, ainda que sabendo que tendem, paradoxalmente, à insustentabilidade da própria vida.

A IIRSA como estratégia de poder hegemônico


A força interna do capitalismo se defende e se reconstrói permanentemente através do desenho de um conjunto de estratégias integrais, multidimensionais, que se difundem planetariamente, entre as que se encontram nos megaprojetos de reordenamento territorial, que são necessariamente também de reordenamento político, como o da Integração da Infraestrutura Regional da América do Sul, a IIRSA. A principal virtude de projetos como IIRSA é a de ser capazes de restabelecer e potencializar as condições gerais da valorização, mais que a de gerar negócios suculentos em sua própria colocação em prática, coisa que também ocorre.

Observados desde uma perspectiva ampla, a IIRSA e o Plan Plueba Panamá são duas partes de um mesmo projeto: os dois foram supostamente idealizados por algum Presidente da região, em um caso Vicente Fox, no México, e em outro Fernando Henrique Cardoso, no Brasil. Com toda distância cultural, intelectual e política que há entre ambos, supostamente ao mesmo tempo desenharam dois projetos semelhantes e geograficamente empatados. As negociações e colocação em prática específicas variam de acordo com as condições sub-regionais, mas os fundamentos dos projetos não: construir uma infraestrutura de comunicações, transporte e geração de energia que constitua um ágil e dinâmico sistema circulatório que permita enlaçar as economias regionais ao mercado mundial.

Um único projeto de mercantilização total da natureza para uso massivo desde o centro do México até a ponta da Terra do Fogo (extremo sul da Argentina). Não se trata da exploração dos elementos naturais para o uso doméstico, nem local nem nacional, mas de sua exploração de acordo com as dimensões de um comércio planetário sustentado, em cerca de 50%, por empresas transnacionais. A infraestrutura que se propõe – e que se requer – é justamente a que permitirá a América Latina a se converter em uma peça chave no mercado internacional de bens primários, ao custo da devastação de seus territórios, abrindo novamente essas veias de abundância que sangram a Pachamama e que alimentam a acumulação de capital e a luta mundial pela hegemonia. O desenho desta infraestrutura vai do coração às extremidades, do centro da América do Sul até os portos no caso de IIRSA e de Colômbia-Panamá até a fronteira com os Estados Unidos no caso do Projeto Mesoamericano, novo nome do Plan Puebla Panamá.

A dimensão da exploração do território da América Latina e de extração de seus elementos valiosos se encontram em relação com dois níveis crescentes demandados por uma economia mundial que responde às vertiginosas necessidades de multiplicação dos próprios lucros, muito mais que as necessidades reais da população do mundo, e chama a uma agilização da circulação de mercadorias para reduzir ao máximo os momentos improdutivos do capital. O nível de extração e produção das empresas envolvidas, mesmo quando sua origem seja local, modificou-se em proporção a esta nova demanda de recursos. Casos como o da Vale do Rio Doce são sintomáticos das novas dinâmicas: empresa enraizada na produção mineira em uma zona de grande abundância de minerais é pouco a pouco estrangeirada através da colocação de ações na bolsa de valores de Nova Iorque ou semelhantes e seus níveis de produção, já grandes, multiplicam-se de acordo com as necessidades de valorização dos capitais proprietários. O ritmo dos trens que transportam o ferro ao porto se incrementou e a quantidade de vagões com cargas se multiplicou nos últimos anos, assegurando com isso a possessão privada, fora da terra, já em qualidade de mercadoria, de um elemento natural que se converteu em parte importante da disputa hegemônica. Com isto se gera a energia que constitui um ágil e dinâmico sistema circulatório que permite enlaçar as economias regionais ao mercado mundial.

A dimensão da exploração do território da América Latina e de extração de seus elementos valiosos se encontra em relação com os níveis crescentes demandados por uma economia mundial que responde às vertiginosas necessidades de multiplicação dos próprios lucros muito mais que das necessidades reais da população do mundo, e chama a uma agilização da circulação de mercadorias para reduzir ao máximo os momentos improdutivos do capital. O nível de extração e produção das empresas envolvidas, mesmo quando sua origem seja local, modificou-se em proporção a esta nova demanda de recursos.

O ritmo dos trens que transportam o ferro ao porto se incrementou e a quantidade de vagões carregados se multiplicou nos últimos anos, assegurando assim a possessão privada, além da terra, já em qualidade de mercadoria, de um elemento natural que se converteu em parte importante da disputa hegemônica. Com isto se acrescenta a pilhagem que foi objeto os povos latino-americanos desde há mais de 500 anos, com os inícios da conquista-colonização, e se submete os territórios, espaço da relação natureza-sociedade em uma depredação selvagem e irreversível.

A exportação de matérias-primas, vista pelos analistas macroeconômicos como um sinal de desenvolvimento e prosperidade, está alterando as condições mesmas da vida por seu caráter massivo e por responder a necessidades alheias às das sociedades locais. E o mesmo que ocorre com as modernas vias de transporte que se propõem e estão sendo habilitadas com a IIRSA. As rotas da IIRSA colocam o enorme território sul-americano à disposição das necessidades de pilhagem dos recursos estratégicos, como se pode observar no mapa abaixo que mostra o que eu considero o desenho estratégico da IIRSA.


Agora os canais interoceânicos não buscam a rota mais curta entre oceanos, mas a mais vasta, a mais rica. Os 80km do Canal do Panamá são agora substituídos pelos 20 mil km da rota amazônica. Esta diferença de critérios põe em evidência que a conexão tem outros propósitos que os buscados no passado, em conformidade com o aumento de capacidades e envergadura da apropriação capitalista. Com as rotas da IIRSA se assegura não somente a extração de recursos de cada uma de suas partes, mas que essa extração se realize de maneira articulada. Vinculam-se interesses nacionais ou locais com interesses transnacionais e inclusive estratégicos.

As rotas da IIRSA passam pelas fontes d'água, minerais, gás e petróleo; pelos corredores industriais do subcontinente; pelas áreas de diversidade genética mais importantes do mundo, pelos refúgios indígenas e por tudo aquilo que é valioso e apropriável na América do Sul. A ampliação das margens dos rios para dedicá-los ao trânsito intenso está colocando em risco os pantanais e degradando as condições de vida de espécies animais e vegetais ao mesmo tempo que violenta os modos de vida de comunidades aldeãs ou vinculadas; a exploração e exportação massiva de minerais castiga à selva com um tráfico pesado constante que vai se comendo rapidamente a mancha amazônica e ameaça os glaciares; as modalidades locais de organização da vida se veem confrontadas com uma dinâmica vertiginosa que não lhes corresponde e que as altera externa e irreversivelmente.




O quadro de interesses da IIRSA

Foram amplamente denunciados os danos presentes ou previsíveis que acompanham este projeto e ainda assim a insistência por mantê-lo é tenaz. Cabe se perguntar então que tipo de interesses prevalecem sobre os altíssimos riscos ecológicos e sociais que entranha a IIRSA.

Por um lado, o fato de contar com a anuência ou inclusive o entusiasmo de muitos dos governos latino-americanos é resultado de uma combinação na qual governos e empresas locais recebem alguns benefícios que, em seu nível, podem ser significativos.

Por outro lado, evidentemente uma rede infraestrutura das características planejadas é sem dúvida um facilitador das atividades extrativas, e econômicas em geral, dos grandes capitais do mundo em busca de recursos competidos e valiosos, que em muitos casos podem ser considerados estratégicos para a reprodução global do sistema e, portanto, para o asseguramento não só das condições de vida do capitalismo, mas também da hegemonia.

A construção mesma da infraestrutura parece não ser a chapa mais cobiçada. As grandes transnacionais tem como foco de interesse a exploração dos recursos, muito mais que os negócios grandes para os investidores locais, mas relativamente pequenos para elas, da construção de estradas, ferrovias, hidrovias, represas e outros semelhantes.

Pela maneira como se comportaram os governos e as empresas, parece ter quase um acordo de complementaridade no qual ambos se beneficiam e por isso mesmo ambos defendem o projeto como próprio. A variegação de interesses acrescentou ultimamente pela entrada de capitais estrangeiros em empresas locais, a maioria das vezes relacionadas com as atividades extrativas, como é o caso da Vale do Rio Doce. Estas empresas se potencializam, aumentam sua produção e, evidentemente, suas exportações; vinculam-se mais estreitamente ao mercado mundial, mas seguem aparecendo como nacionais quando em vários casos seu capital já é majoritariamente estrangeiro.

Talvez a empresa latino-americana mais favorecida pela IIRSA atualmente é a Odebrecht, que se anuncia como empresa brasileira. Por se tratar de uma empresa de engenharia e construção, nesta primeira etapa se envolveu em projetos em toda a região de IIRSA.

Odebrecht tem investimentos na América em 13 países, além do Brasil. Abarca geograficamente desde o México até a Argentina, com atividades também no Caribe (República Dominicana), América Central (Costa Rica, Panamá) e América do Sul (Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai), como se pode observar no mapa abaixo, que mostra a proximidade das áreas de seus projetos de investimento com as que contém os recursos mais valiosos.



Nas atividades extrativas historicamente se registrou a presença de grande transnacionais estrangeiras, e daí esta vinculação de interesses que mencionávamos. É um setor no qual a competência dificulta a entrada de capitais nacionais, sobretudo depois da desproteção e a mudança de critérios sobre os patrimônios nacionais induzidos pelo neoliberalismo.

Revisando as listas das 500 maiores empresas do mundo elaborada desde há um longo tempo pela revista Fortune, e aquelas das 500 maiores da América elaborada pela revista América Economia, o que se observa é a escassa participação de empresas latino-americanas nas atividades de maior envergadura. Ainda quando se encontrem nestas atividades, sua participação é de muito menor monta, exceto nos casos da Odebrecht, Aracruz e Votorantim, as três originalmente brasileiras.

A extração de petróleo e gás tem em alguns países exclusividade de empresas do Estado, mas, no que toca ao restante, as empresas principais neste setor são Exxon, Royal Dutch, British Petroleum, Chevron, CONOCO-Philips, ENI, Petrobras, Repsol-YPF, SK, Occidental Petroleum, Lukoil, EnCana e Oil and Natural Gas. A localização de projetos destas empresas não deixa dúvida de seu bom tino pois se encontram em todas as regiões de importantes jazidas, como se observa no mapa. Estas localizações ficam bem protegidas pelas facilidades infraestruturais projetadas pela IIRSA, de modo que seu acesso ao mercado mundial, já bastante ágil, se veria ainda muito melhor. Veja o mapa abaixo.



Os minerais, elementos que formam a estrutura material básica dos processos produtivos, tem na América Latina um de seus espaços de maior diversidade e abundância. Os minerais metálicos são foco de atração de grandes empresas de dimensão planetária como Anglo American, BHP Billinton, Río Tinto, Vale, Xstrata e Nippon Mining Holdings, e sua distribuição territorial as leva a diversas regiões sul-americanas que em todos os casos terão a virtude de ser articuladas através das rotas de IIRSA (ver mapa abaixo).



A apropriação de bosques, naturais ou gerados artificialmente, tem suas principais zonas em pontos muito específicos. Seu distribuição territorial é muito menos extenso que os das atividades anteriores, mas se trata também de capitais de grande envergadura, vinculados com a produção de celulose e papel (mapa abaixo).



Basta observar o que está acontecendo no estado brasileiro do Pará, originalmente selvagem, hoje cheio de pastos para o gado e crateras mineiras que desflorestam, transformam lógicas locais de socialidade e organização da reprodução.

As principais empresas que se encontram no setor são Stora Enzo, Weyerhauser, Aracruz Celulose, Votorantim Celulose, Kablin, Suzano Papel e Celulosa, CELCO e CMPC, as duas últimas com investimentos no sul do Chile.

Evidentemente, além de todas as empresas mencionadas há um quadro de empresas menores vinculadas com as atividades das grandes, entretanto são completamente dependente destas, ou seus níveis de produção não repercutem nos grandes mercados e nem definem as dinâmicas da economia.

A ideia de mostrar a distribuição geográfica destes grandes investimentos provém do interesse de revisar a capacidade destes agentes capitalistas para ocupar e definir o território e suas dinâmicas. Uma das coisas que nos deve preocupar é como o território está sendo expropriado e como projetos como IIRSA reforçam essa tendência.

E, em realidade, ainda que neste terreno possamos constatar a grande quantidade e diversidade dos interesses em jogo, é o sujeito hegemônico que marcha à cabeça do processo. Nós temos um cálculo do território estrangeiro ocupado por bases militares estadunidenses mas seria necessário medir o ocupado pelas propriedades das empresas para ter uma ideia cabal da dimensão territorial da dominação.

Com esses cálculos poderíamos nos encontrar em melhores condições para analisar se a IIRSA é um projeto dos Estados sul-americanos ou uma exigência desses grandes capitais que arrastam os Estados a formularem as políticas que os beneficiam, porque quais são os Estados hoje se não uma parte desse sujeito econômico, desse sujeito dominante que às vezes se chama capital brasileiro, às vezes capital equatoriano, muitíssimas vezes capital estadunidense mas que, finalmente, revela uma fusão de interesses em relação com o grande capital das empresas transnacionais, impulsionadas, protegidas e representadas pelo Estado norte-americano.

Inclusive hoje, ainda que seja difícil de falar da nacionalidade do capital, efetivamente há um enorme peso do capital estadunidense em todas mais importantes atividades, mais dinâmicas e com maior futuro no mundo. Isso autoriza a seguir falando do sujeito estadunidense como sujeito hegemônico, ou seja, esse grande capital que se aglutina em torno do Estado estadunidense, ainda que tenha alguns mexicanos, brasileiros, japoneses ou capitais provenientes de qualquer outro lugar, mas incorporados organicamente a essa estrutura de poder.

Nota

(1) Este trabalho contou com a valiosa contribuição de Rodrigo Yedra, membro do Observatório Latino-americano de Geopolítica.

Ana Esther Ceceña
é Diretora do Observatório Latino-americano de Geopolítica no Instituto de Investigações Econômicas, Universidade Autônoma do México. Coordenadora do grupo de trabalho Hegemonias e Emancipações de CLACSO. Livros: Producción estratégica y hegemonía mundial (México: Siglo XXI); Hegemonías y emancipaciones en el siglo XXI (Buenos Aires-Sao Paulo: CLACSO); Desafíos de las emancipaciones en un contexto militarizado (Buenos Aires: CLACSO); Derivas del mundo en el que caben todos los mundos (México: Siglo XXI); De los saberes de la dominación y la emancipación (Buenos Aires: CLACSO).


Traduzido para Diário Liberdade por Lucas Morais

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Mira y Resiste: Lucio (2007)

SOCIALISMO - LUCIO (Aitor Arregi e Jose Mari Goenaga - 2007) Falado em Espanhol
Documentário sobre a vida de Lucio Urtubia. Anarquista, falsificador, contrabandista e operário. Conhecido no mundo inteiro por falsificar cheques de viagem do First National City Bank (hoje Citibank) na década de 70, pondo em risco uma das principais instituições financeiras do mundo e roubando do banco cerca de US$ 20 milhões. O dinheiro arrecadado foi usado para várias causas revolucionárias. Documentos falsificados e passaportes para ativistas do mundo inteiro. Ele colaborou com os Tupamaros, com grupos anti-fascistas de resistência, ETA, ERP, GARI, etc

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Breve Histórico da Luta Popular e do Anarquismo no Brasil


Artigo Editorial do informativo LIBERA 150.

O anarquismo enquanto uma ideologia, ou seja, um sistema de idéias e valores que possui relação direta com a prática política e a transformação revolucionária; aporta no Brasil com os imigrantes, mas se consolida como uma ferramenta de luta dos trabalhadores “nativos”. Aqui, a estratégia política anarquista para os sindicatos, o sindicalismo revolucionário torna-se a principal metodologia adotada pelos operários nos principais centros industriais do país.

Sindicalismo Revolucionário e Anarquismo no Brasil

O surgimento do anarquismo está indissociavelmente ligado a formação e as estratégias de luta da classe trabalhadora, especificamente na Europa da segunda metade do século XIX, época que Proudhon considerava como o momento em que “(...) as classes operárias adquiriram consciência delas próprias”. As experiências de um conjunto significativo [1] dos oprimidos pelo seu projeto de ruptura com a sociedade capitalista, naquele momento definiram os “últimos” contornos da proposta anarquista, cujo marco ideológico mais nítido pode ser identificado com os conflitos dos socialistas revolucionários [2] “bakuninistas” com o socialismo autoritário marxista.

O anarquismo enquanto uma ideologia, ou seja, um sistema de idéias e valores que possui relação direta com a prática política e a transformação revolucionária; aporta no Brasil com os imigrantes, mas se consolida como uma ferramenta de luta dos trabalhadores “nativos”. Aqui, a estratégia política anarquista para os sindicatos, o sindicalismo revolucionário torna-se a principal metodologia adotada pelos operários nos principais centros industriais do país. A ação direta, a autonomia da classe e a democracia direta, de base, são exemplos dos princípios postos em prática pelos trabalhadores para conquistarem seus direitos e necessidades. Nas três primeiras décadas do século XX, as organizações da classe trabalhadora, potencializadas pelo sindicalismo revolucionário, esforçam-se por lutar contra as investidas das elites dominantes e a nascente burguesia, que se valem, por exemplo, do estado de sítio para atacar os trabalhadores, tratando a questão social, como um “caso de polícia”. Algumas conquistas históricas da classe trabalhadora serão alcançadas neste período, como por exemplo, as oito horas de trabalho. A transformação radical permanecerá no horizonte da classe, à despeito da atuação dos sindicatos amarelos [3] (reformistas). À precarização crescente do/a trabalhador/a no período da Primeira Grande Guerra, a Confederação Operária Brasileira responderá com uma grande greve geral. E em 1918, uma insurreição armada, seguida de uma greve geral, tentará fundar um soviete [4] brasileiro, inspirada na prática generalizada de autoinstituição da classe trabalhadora russa, que emerge com mais relevância em 1905 e se radicaliza em 1917, na Revolução Russa.

A combatividade dos/as trabalhadores/as dos grandes centros industriais brasileiros do período será alvo de uma intensa repressão, que atingirá especialmente os anarquistas nas décadas de 10 e 20. Na Rússia de Trotsky e Lênin, os marinheiros de Kronstadt, os anarquistas, socialistas e setores de esquerda que não comungam totalmente com as propostas políticas do partido bolchevique são esmagados em 1921; a oposição interna e a democracia do partido bolchevique já tinham sido esmagadas desde 1919. São os germes do totalitarismo. É desta época também, visivelmente inspirada nos preceitos bakuninistas, a tentativa de consolidação da organização específica anarquista (Aliança Anarquista em 1918 e Partido Comunista [5] , o libertário em 1919) em território nacional, iniciativa que é interrompida não só pela repressão, mas também pelo “excesso de sindicalismo” que acomete os/as militantes anarquistas brasileiros/as.

Em 1937 o Estado Novo arrasa as entidades de classe, atrelando os sindicatos ao estado e reprimindo brutalmente os opositores políticos. O sindicalismo revolucionário, principal estratégia anarquista para a classe esvazia-se e com ela, o anarquismo sofre um duro golpe. A opção pela atuação parlamentar do PCB no período; introduz um forte elemento burguês na atuação da classe, dividindo os/as trabalhadores/as e subordinando a luta social à luta parlamentar.

Os anarquistas durante a ditadura getulista (1937-1945) e a reabertura democrática (1946 – 1954)

Ao contrário de algumas interpretações tradicionais, que subordinam os acontecimentos históricos aos aportes conceituais de pouco refinamento, o anarquismo não desaparece nem com a fundação do PCB em 1922, nem com o Estado Novo em 1937. O anarquismo está fragilizado, mas os anarquistas não deixam de se organizar. Os contatos, ainda durante o Estado Novo (1937-1945) jamais cessam, mesmo que clandestinos. Reorganizam-se no bojo do congresso anarquista de 1948 e fortalecem suas organizações específicas (União Anarquista do Rio de Janeiro, União Anarquista de São Paulo, etc), mas a presença anarquista nos sindicatos é frágil, apesar da valente propaganda ideológica de seus periódicos [6] . A hegemonia política da esquerda no Brasil é do PCB. Este defende a “Constituinte com Getúlio” unindo-se a setores da burguesia “progressista”, linha já definida pela lógica de atuação do comunismo internacional, e em 1945 chega até a condenar e barrar as greves operárias em prol da consolidação democrática no mesmo ano, ferindo a autonomia da classe.

O período supostamente democrático que se segue ao fim do Estado Novo não esconde os ataques aos direitos e a autonomia dos trabalhadores pelo governo Dutra (1946-1954); a estrutura corporativista que conecta os sindicatos se mantém. A autonomia e a independência de classe que caracterizam a atuação dos sindicatos no início do século serão substituídas por uma relação de subordinação às estruturas governamentais. Tanto do ponto de vista da estrutura sindical corporativista e da ideologia populista, que transformam o sindicato num apêndice do Estado, quanto da atuação parlamentar do PCB, que subordina as lutas à sua estratégia legalista. Em termos globais, o mundo está politicamente dividido entre os blocos do capitalismo e do socialismo “real”, prenunciando a famosa Guerra Fria. O suposto socialismo da URSS neste período é denunciado pelos/as anarquistas brasileiros/as como um imenso capitalismo de estado; à despeito das interpretações trotsquistas que lhe imprimem um suposto caráter de Estado Socialista “degenerado”, o estado soviético configura-se como um aparato monstruoso de opressão e extermínio [7] dos dissidentes, um totalitarismo de Estado e o domínio uma nova classe, a classe dos gestores [8] . Diga-se de passagem, é importante citar que a militarização dos sindicatos, a verticalização das decisões políticas e a relação de subordinação da classe pelo partido bolchevique, fora delineada e operacionalizada, por Lênin e Trotsky.

Em 1964 um novo golpe civil-militar, apoiado por grandes empresários, setores conservadores, e arquitetado pelos militares convulsiona o país. Parte da esquerda opta então pela resposta armada, e apesar de muito aguerrida, a estratégia foquista, inspirada numa suposta superioridade política da vanguarda comunista sobre a classe, inviabiliza o acúmulo de força social necessário para derrotar a ditadura, pois possui pouca relação com as necessidades e questões do cotidiano dos/as trabalhadores/as. No Brasil, a atuação dos/as anarquistas, apesar de modesta não seria passada despercebida pela ditadura. Integrantes do Movimento Estudantil Libertário e do Centro de Estudos Professor José Oiticica serão presos e torturados. O anarquismo, assim como outras ideologias da esquerda contrárias a ditadura, também fora proibido pelo sombrio regime militar.

Luta Popular e anarquismo hoje: da abertura democrática (1981 – hoje) aos movimentos sociais contemporâneos

O anarquismo que emerge no período da reabertura democrática é cético com a principal cartada da esquerda no período: a democracia burguesa. Enquanto a principal força da esquerda (PT) se esforça para compatibilizar a estratégia eleitoral burguesa com as lutas de base (sindicatos, movimentos populares e estudantis), os anarquistas estão inseridos em diferentes movimentos populares apostando na auto-organização da classe, o que alguns chamarão de criação de um povo forte. O anarquismo brasileiro que emerge no período democrático é um anarquismo mais amadurecido e apesar do contexto de reconstrução dos laços políticos libertários, é crítico consigo mesmo. Fazem parte deste contexto interno do anarquismo, o aprofundamento do plano teórico libertário, o trabalho de base, a unidade teórica e ideológica, a luta popular e a necessidade das organizações específicas anarquistas, que constituem nossa tradição anarquista.

A caminhada do PT rumo à conquista das instituições burguesas prenuncia o que os anarquistas denunciavam há décadas: a incompatibilidade da luta popular de base transformadora e radical com a democracia representativa burguesa. Paulatinamente a luta popular é subordinada pela luta parlamentar e pelo imaginário capitalista [9] que vem acoplado à sua dinâmica. A crise do PT que é muito anterior a eleição de Lula, não fora uma “crise de direção” como alguns setores da esquerda apontam, mas sim uma crise de concepção, já traçada na teoria marxista-leninista de subordinação da classe pelo partido. Acossado pelo jogo burguês, o partido se molda gradativamente a dinâmica eleitoral. O PT, que abandonara o vocabulário socialista bem antes da eleição de Lula, já renunciava ao seu projeto socialista muito antes da crise do mensalão em 2003. Portanto é incorreto afirmar, como o fazem os novos/velhos partidos que surgem no período e que reproduzem a mesma estratégia equivocada, que somente em 2003 o PT deixou de ser um “instrumento histórico” da classe trabalhadora.

A eleição de Lula/Dilma pacifica os movimentos sociais atrelados ao PT e de sua base aliada. Neste período, os movimentos sociais são incorporados por meio da cooptação de lideranças, pacificados pelo atrelamento de suas agendas de luta ao calendário e dinâmica institucional do Estado burguês ou simplesmente reprimidos, quando se atrevem a enfrentar os inimigos de classe. Direitos históricos dos/as trabalhadores/as são atingidos/as no âmbito da perversa ofensiva neoliberal. Do ponto de vista latino-americano, o ataque se chama IIRSA, um plano intercontinental de integração do capitalismo: mais roubo, mais exploração, mais saque dos “recursos” naturais. Prepara-se neste período uma grande ofensiva de criminalização da pobreza e de controle social em âmbito nacional: UPP’s, PAC, desmonte dos direitos básicos dos trabalhadores (saúde, educação, moradia, etc) e benefício do grande capital transnacional.

Estratégia Popular e Anarquismo

Acreditamos que o momento é de fincar as raízes dum projeto de organização e poder popular. Não há revolução sem crise; mas a crise não é mero produto de “contradições” do capitalismo, a crise é a medida da nossa capacidade, enquanto povo, de prepararmos e operarmos uma ofensiva enquanto classe contra as estruturas que nos oprimem, e isto inevitavelmente requer organização. Para isto, do ponto de vista do projeto de poder popular e dos movimentos sociais, acreditamos que a tarefa é preparar pacientemente o trabalho de base nos espaços da nossa classe (sindicatos, bairros, favelas, ocupações, comunidades, assentamentos, etc.). Reconstruir os laços sociais destruídos pelo capitalismo, reforçar a organização popular e atender as necessidades do nosso povo, por meio da ação e da democracia direta, da solidariedade e da autonomia. O trabalho de base requer sistematicidade, perseverança e organização e acima de tudo, deve dar protagonismo ao conjunto da classe (e não à meia dúzia de iluminados): o que chamamos de criar um povo forte.

Do ponto de vista do anarquismo, defendemos um anarquismo classista, voltado para a luta popular. Um anarquismo que não vá nem a frente, nem se deixe levar à reboque das lutas, mas que se constitua como uma ferramenta revolucionária, dentre as possíveis, de emancipação popular, portanto, um anarquismo atual. Para reunirmos nossas forças, defendemos a necessidade da organização específica anarquista; fundamental para concentrar as energias dos/as anarquistas em tarefas articuladas coletivamente sob um fundo estratégico comum.

Neste sentido, a última década assistiu a um passo muito importante para os/as anarquistas em solo brasileiro. Juntos/as às organizações que compõem o Fórum do Anarquismo Organizado (FAO - Brasil), caminhamos modestamente, na articulação de um projeto nacional de anarquismo. Este projeto, em permanente construção, ainda tem muito o que realizar, mas sem dúvida nenhuma é um passo relevante no amadurecimento organizativo do anarquismo brasileiro.


[1] Como a Comuna de Paris.
[2] Chamados à época de coletivistas.
[3] Que curiosamente mantinham uma aliança com os comunistas do PCB.
[4] Os sovietes existiam desde 1905 na Rússia. Fruto da experiência da classe, os comunistas em 1905 condenavam a participação dos bolcheviques nos sovietes.
[5] Não confundir com o Partido Comunista de orientação marxista-leninista, fundado em 1922. O termo comunismo também era utilizado pelos anarquistas no período.
[6] Referimo-nos a Ação Direta, A Plebe (2ª edição) e Remodelações. Fundamental citar também o jornal Ação Sindical.
[7] Anterior ao stalinismo, diga-se de passagem. Em 1921, os marinheiros e militantes de esquerda que divergiam do aparelhamento do Partido Bolchevique foram fuzilados, deportados e presos pelo governo bolchevique, pelas ordens de Lênin e Trotsky.
[8] Defendemos que uma classe dominante não se define apenas pela apropriação da mais-valia, mas também pela gestão do modo de produção.
[9] Como a separação dirigentes e executores, característica do capitalismo.

Por Federação Anarquista do Rio de Janeiro
Related Link: http://www.farj.org

Extraído de: http://www.anarkismo.net/article/20543

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Um pouquinho de Teoria - Parte II

TEORIA DA ORGANIZAÇÃO POLÍTICA ANARQUISTA

“Possuir a capacidade política é ter consciência de si
como membro de uma coletividade,
afirmar a idéia que daí resulta e perseguir sua realização.”
P.-J. Proudhon

“O anarquismo é o viajante que toma as ruas da história
e luta com os homens tais como são e constrói
com as pedras que lhe proporciona sua época.”
Camillo Berneri


 O tema da teoria da organização política foi tratado a partir de cinco eixos principais: prática política, organização específica, estratégia e tática, ação de massas e luta avançada. Serão pontuados alguns aspectos em relação aos eixos.

Prática política
A teoria aponta para a elaboração de conceitos e de um método para pensar e conhecer rigorosamente a realidade social e histórica. A análise profunda e rigorosa de uma situação concreta será um trabalho teórico o mais científico possível. A ideologia é composta de elementos de natureza não científica, que contribuem para dinamizar a ação. A expressão de motivações, a proposta de objetivos, de aspirações, de metas ideais, isso pertence ao campo da ideologia. Uma prática política eficaz exige o conhecimento da realidade (teoria), a postulação harmônica com ela de valores objetivos de transformação (ideologia) e meios políticos concretos para conquistá-la (prática política).

Organização específica anarquista
Para distinguir seu programa e não diluir sua bandeira na massa das forças sociais os anarquistas formam uma organização específica para a prática política. Por suas finalidades revolucionárias, a organização só reúne uma minoria ativa para poder atuar na luta pública e fora dela. A organização é uma federação de militantes com unidade ideológica e estratégico-tática, com democracia interna e uma disciplina consciente para suas realizações. O anarquismo organizado não substitui nem representa as organizações sindicais e populares. Dentro dessa concepção, não é um partido para tomar o poder, mas para ajudar a desenvolver capacidade política nas massas para construir poder popular.

Estratégia e tática
A atividade de uma organização política supõe uma previsão do devir possível dos acontecimentos durante um lapso mais ou menos prolongado, previsão que inclui a linha de ação a adotar pela organização frente a esses acontecimentos de maneira a influir sobre eles no sentido mais eficaz e adequado. Uma linha estratégica é, habitualmente, válida enquanto perdura a situação geral a qual corresponde. As opções táticas, na medida em que respondem a problemas mais precisos, concretos e imediatos, podem ser mais variadas, mais flexíveis. Sem dúvida não podem estar em contradição com a estratégia.

Ação de massas
A organização das forças populares, dos movimentos e organizações das classes oprimidas é parte fundamental da estratégia anarquista. Estar organizado socialmente e inserido nas lutas é um critério para atuar como força política. A classe trabalhadora e os movimentos sociais devem se organizar com independência de governos, partidos e patrões. A luta de massas é um espaço para fazer unidade em defesa dos interesses de classe. O anarquismo deve atuar como fermento moral e intelectual, levando seus métodos de luta e organização como um anticorpo de luta permanente contra a burocracia, o centralismo autoritário e a colaboracionismo. O lugar das ideologias na frente social não é o de protagonismo imediato, de partidarização, mas circulação de idéias, métodos e valores a partir das situações concretas que formam as experiências da luta.

Luta avançada
O problema da violência, como categoria da política, é fundamental num processo revolucionário que procure abater as estruturas de poder do capitalismo. A luta avançada é uma parte decisiva da prática política de uma organização revolucionária que atua também, com uma estratégia articulada e global, no nível das lutas populares. A luta revolucionária por objetivos socialistas deve contar com o protagonismo de um setor importante das massas e por isso não dispensa o trabalho político e ideológico no interior dos seus movimentos. A organização de uma força militante como elemento de choque e recurso técnico prévio da radicalização das lutas contra o poder burguês é uma exigência para uma estratégia vitoriosa de revolução social.


MARCO TEÓRICO E CATEGORIAS DE ANÁLISE (MÉTODO DE ANÁLISE)

Para o trabalho de análise, com a utilização de um método determinado, houve a necessidade de distinguir, como colocado, as categorias de ideologia e estratégia. A formação pontuou: O socialismo é uma aspiração, uma esperança dos povos e das classes oprimidas (ideologia). Mas precisa ter sua elaboração teórica, vinculada ao terreno do saber, dos estudos e da análise social rigorosa (teoria). Isso implica, portanto, ter claro quais são os elementos mais fixos que constituem a ideologia, e quais são os elementos teóricos, que funcionarão como uma caixa de ferramentas e que terão por objetivo proporcionar elementos para que se possa conhecer; nesse sentido, as ferramentas teóricas não têm, necessariamente, de ser anarquistas, ainda que se deva ter em conta a relação entre ideologia e teoria, ferramentas que devem proporcionar elementos para uma compreensão adequada do sistema, das formações sociais, da conjuntura. Nesse sentido, a teoria busca conhecer e a ideologia transformar.

Capitalismo como sistema de dominação
O capitalismo é um sistema. Sistema é um conceito para discernir o “núcleo duro”, a configuração dos elementos constitutivos que fundam e dão sentido a uma totalidade social. O capitalismo constitui um sistema de dominação que tem por constituição fundamental alguns elementos: Propriedade privada; exploração; disciplinamento dos corpos; a modalidade de representação, administração e justiça; um sistema coercitivo e repressivo; a existência de classes sociais; exclusão social. Esse sistema de dominação está formado por uma estrutura global formada por distintas esferas, entre elas: estrutura econômica; estrutura política-jurídica-militar; estrutura ideológica-cultural (idéias, representações, comportamentos, modo de informação, tecnologias de poder a ela unidas). Estrutura é o conjunto de elementos de uma organização social e suas relações, presentes no sistema de dominação. O capitalismo, concebido globalmente como sistema de dominação, possui agentes que impulsionam essa dominação em todas as esferas. Por exemplo: Política: organizações internacionais (FMI, Banco Mundial, OMC, União Européia, OTAN, etc); Economia: empresas transnacionais, bancos; Ideológico: conglomerados de mídia.

Interdependência das esferas
O método apresentado na formação baseia-se na interdependência das esferas e, portanto, entende o sistema como um todo no qual uma esfera influencia, sustenta e torna as outras dependentes. O sistema de dominação (capitalismo) é constituído por uma estrutura global formada por distintas esferas, estrutura esta que não têm determinação outra a não ser a interdependência. As distintas esferas da estrutura tem autonomia relativa, com elementos específicos que constituem no seu interior outras esferas menores. A dominância de uma estrutura sobre a outra não se estabelece a priori, é produto das análises respectivas. O sistema de dominação é dinâmico e atravessa várias etapas históricas mantendo elementos estruturais que o reproduzem de distintas maneiras.

Poder, dominação, resistência e as distintas esferas da sociedade
A estruturação da sociedade está baseada em última análise nas relações de poder e dominação, relações fundamentais que atravessam todas as esferas e configuram modos de articulação da estrutura global com seu característico núcleo duro. O poder circula por todo o corpo social, pelas diferentes esferas estruturadas. Vale dizer por todas as relações sociais. O poder está nas relações sociais, nos diferentes campos das relações sociais e o aparelho de Estado estaria contendo com toda sua dimensão, circulando pelo seu interior,certa síntese de poder dominante. Sendo assim, o poder não reside nas estruturas nem nas instituições, mas no campo das relações sociais. E não somente no político, mas também no econômico, ideológico, jurídico e todas as instituições do sistema. Teríamos assim poder no econômico, jurídico-político-militar, ideológico-cultural. Nesse sentido, há resistências nas distintas esferas que podem ser maiores ou menores, mais ou menos ameaçadoras ao sistema de dominação.

Poder e Estado
As instituições, os aparelhos, as estruturas não são amorfas, estão sempre penetradas pelo poder. Articulada a estrutura de produção, por exemplo, está o poder, as classes e as lutas. O aparelho de Estado contém certa síntese de poder dominante que circula no seu interior. Não se pode definir o Estado como o conjunto da sociedade e nem equiparar Estado e poder. O Estado é o lugar de “condensação” de diversos poderes, um lugar específico que tem sua própria “autonomia relativa” e que é capaz de manter e reproduzir privilégios de diferentes ordens. Sua dinâmica é centralizadora, apta só para dominação, sua função é repressora e controladora. Os conceitos básicos para o Estado o definem como monopólio da força repressiva organizada, da “justiça”, estrutura de privilégios, centralizadora, anuladora do que não controla.

Formações sociais e conjuntura
As formações sociais concretas são o campo da análise descritiva de sociedades históricas onde o sistema de dominação tem determinação em estado prático. O grupo de acontecimentos que marcam um momento específico das formações sociais e suas estruturas fundamentais formam a conjuntura.

Ideologia e sujeito
Determinados momentos históricos produzem com peso um conjunto articulado de idéias, representações, noções no interior do imaginário dos distintos sujeitos sociais. Um conjunto articulado de caráter imaginário, que toma a forma de “certezas” defendidas pelos mesmos sujeitos sociais. Isto é o que pode transformar estes sujeitos em protagonistas de sua própria história ou em sujeitos passivos e/ou disciplinados pelas forças dominantes. Isto é o que chamamos de ideologia (não confundir a ideologia da sociedade que se fala aqui com a ideologia anarquista, tratada anteriormente). Ideologia não é falsa consciência. O sujeito real não está representado na figura do “eu”, na consciência, mas é constituído na estrutura do inconsciente, isto é, nas formações ideológicas em que ele se reconhece. O que o sujeito vive e como vive cotidianamente, historicamente, no marco de determinados dispositivos, seria o elemento principal de mudança de sua consciência. É construindo força social e tomando ativa participação nela que se podem formar embriões da nova civilização ou do “homem novo”, de outro sujeito. Digamos que este é o tema de como se transforma a consciência, para usar a linguagem clássica. Pelo que tem se visto a economia por si não transforma a consciência. O que o sujeito vive e como vive cotidianamente, historicamente, no marco de determinados dispositivos, seria o elemento principal de mudança de sua consciência. O que está no centro da história não é o homem, mas as lutas de poder e economia. Os fazedores de história seriam especialmente classes (grandes coletivos) operando como forças sociais.

sábado, 27 de agosto de 2011

Coletivo Anarquista Bandeira Negra e Lançamento dos Livros: Negras Tormentas e Alem de Partidos e Sindicatos

"Negras Tormentas: o Federalismo e o Internacionalismo na Comuna de Paris", de Alexandre Samis. Conforme colocado pelo professor Wallace dos Santos de Moraes na orelha do livro, a presente obra “deve ser saudada com uma grande festa, tanto pela comunidade acadêmica como pelos leitores em geral”. Ele continua: “O leitor do século XXI deve colocar três grandes questões sobre a Comuna de Paris: 1) Como foi possível realizá-la? 2) Como foi seu desenvolvimento? 3) Qual foi seu legado? A obra de Samis trata dessas questões de forma magistral, respondendo-as sempre no plural, isto é, chamando a atenção para os diversos fatores que influenciaram na possibilidade, na necessidade e nos resultados da eclosão da Comuna. Para além disso, aquele que se debruçar sobre a obra terá a oportunidade de conhecer a gênese desse episódio nos seus aspectos mais longínquos. Com efeito, o leitor é presenteado com o conhecimento da história política e social francesa do século XIX por meio da narrativa dos fatos, e também conhece o rico debate entre seus intérpretes. Ademais, a história da Associação Internacional dos Trabalhadores e o grande debate entre anarquistas, marxistas e outras correntes políticas são passados em revista. A partir destas discussões, a Comuna de Paris é inserida em seu contexto. É esse o grande mérito do autor, diferenciando-se de outros que a tratam por si mesma, como se tivesse nascido do nada. No livro de Samis, a eclosão da Comuna é vista como resultado de todo um acúmulo de lutas e questões sociopolíticas que estavam na ordem do dia na Europa no século XIX. Assim, o autor, com propriedade -- apropriando-se do conceito de autoinstituição de Castoriadis --, nega que a Comuna tenha sido a última revolução plebeia e também a primeira revolução proletária. Ela é posta no seu devido lugar: como evento autônomo e coberto de idiossincrasias. Para o bem do leitor e da teoria, trata-se de uma pesquisa que discute muito mais do que aquilo que se propõe -- e que é ainda mais abrilhantada pelo prefácio de René Berthier, francês e estudioso do tema.” Publicado nesse ano que marca os 140 anos da Comuna de Paris, Negras tormentas, “o livro, hoje”, considera Moraes, “é a principal referência sobre o estudo da Comuna de Paris já publicado no país”.

Alexandre Samis é Doutor em História pela Universidade Federal Fluminense e professor do Colégio Pedro II. É militante da Federação Anarquista do Rio de Janeiro e diretor do SINDSCOPE. Autor dos livros "Clevelândia: anarquismo, sindicalismo e repressão política no Brasil" (Imaginário/Achaimé, 2002) e "Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, o anarquismo e o sindicalismo revolucionário em dois mundos" (Letra Livre, 2009).

"Além de Partidos e Sindicatos: Organização Política em Anton Pannekoek", de José Carlos Mendonça: Em meio ao fracasso, atestado pelas diversas convulsões sociais que continuam estourando por todo o mundo, das teses presentes nas crônicas de muitas mortes anunciadas (formuladas desde uma esquerda envergonhadas até uma direita enraivecida; que pronunciavam o "fim" das ideologias, da luta de classes, do socialismo, enfim, da própria História), o que presencia é a longevidade do único "sujeito" que nenhum desses apologetas espera ver falecer; o capital. A capacidade que esta relação social tem de continuar se reproduzindo ampliadamente, de forma alguma responde apenas a determinações econômicas.

José Carlos Mendonça é Doutorando em Ciências Sociais pela Unicamp e Pesquisador do Laboratório de Sociologia do Trabalho (LASTRO-UFSC).

27/08/2011 - Sindicato dos Bancários em Florianópolis às 17h